Argumentos: A República Independente da Gardunha

Nasci em 1975, no Hospital de uma Misericórdia, que a minha mãe descreve como escuro, velho e assustador.

Lembro-me de viver sem luz elétrica, de instalarem o saneamento básico na minha rua, da reunião de vizinhos com um funcionário do Estado para escolher o nome dessa mesma rua.

Até aos anos oitenta, ali moravam mulheres, crianças e homens reformados. Os homens estavam emigrados desde os anos sessenta, depois de terem cumprido o serviço militar ao serviço de uma guerra que não compreendiam e que, até ao fim dos seus dias, lhes deu noites em claro.

O percurso escolar foi avançando, à medida que cresciam as oportunidades de uma menina nascida numa aldeia da Beira Baixa, poder frequentar os vários níveis de ensino. Ninguém, dos noventa alunos que tinha a minha escola primária, ousaria levantar os olhos e sonhar com ensino superior.

Concluída o ensino superior e com meia dúzia de anos vividos em Lisboa, decidi........

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