Num País inclinado para o mar, a paisagem rural especializa-se num novo tipo de ocupação do solo: o intensivo.
O intensivo traduzido em grandes extensões de monoculturas (nozes, amêndoas, azeite) cuja rentabilidade rápida e maximizada depende em muito da existência de rega também intensiva.
O uso de solo que antes era ocupado com hortícolas, cereais ou criação de gado deu lugar a novas paisagens, com cada vez menos habitantes.
A par da agricultura, a «plantação» de grandes áreas de painéis fotovoltaicos, destrói ecossistemas baseados em manchas de carvalho, azinho ou sobreiro, deixando vazios quilómetros e quilómetros de telhados urbanos que fariam o mesmo efeito em termos de extensão de investimento.
A alteração da paisagem rural, que se alimenta e ao mesmo tempo potencia fatores como o despovoamento, a perda de qualidade dos solos, o uso excessivo de água, o ataque a espécies animais e vegetais protegidas, as alterações climáticas, tem também efeitos diretos nos territórios densamente povoados.
Em primeiro lugar, a água. Toda a água consumida pelos portugueses tem origem nos caudais dos rios que estão neste momento a sustentar a agricultura superintensiva e a não ser acumulada em barragens de que o país precisa para consumo humano, projetadas e prometidas há décadas (a do Barbaído ou a do Alvito, por exemplo)
A qualidade do ar depende de um fator que a natureza por si só desempenha, dependendo apenas da existência de árvores que se perdem em incêndios, investimentos vários ou simplesmente abandono.
Toda a produção agrosilvopastoril depende da polinização, atividade desprezada ao ponto de os apoios específicos aos apicultores terem sido, mais uma vez, adiados, tal como veio dizer o Senhor Secretário de Estado da Agricultura a Castelo Branco, para serem negociados no âmbito do PEPAC, quando já havia uma negociação acertada neste âmbito e pronta a avançar.
Um aparte: no mesmo dia, o primeiro-ministro em exercício anuncia a recusa da regionalização, figura administrativa que viria dar mais poder aos atores locais.
As superinfraestruturas necessárias para cuidar, transportar, alojar, e fazer com que sejam possíveis as atividades básicas da vida do cidadão comum e do país urbano, têm custos financeiros pesados que se refletem no Orçamento do Estado, logo, na contribuição que a cada um de nós é exigida.
A vida em comunidade é interdependente: a água gasta em excesso numa atividade há-de faltar para outra; a fatia do orçamento gasto em transportes urbanos, construção para investidores que nunca a hão-de utilizar como morada ou a terceira ponte sobre o tejo (quando a ponte Vasco da Gama já poderia ter cumprido essa função com o planeamento e antecipação devida), trará mais despovoamento porque, apesar de tudo, será mais fácil morar onde todos moram, trabalhar onde a grande maioria quer investir, desistir de um tipo de vida que se julga bucólica, barata e despejada de qualquer necessidade coletiva.
Talvez quando a água que nos escorre com facilidade pelas torneiras de casa alcance um tal peso no orçamento familiar que tenhamos de a racionar, os vegetais que nos chegam ao prato saibam igual a uma folha de papel ou o calor e a seca façam aparecer desertos em algumas zonas do País e situações climatéricas difíceis de suportar na grande maioria das outras, tenhamos consciência de onde nos vem esta fatura.
Até lá, a maior parte das regiões continuarão a ser vistas como o quintal do País e a ser tratadas como tal.

QOSHE - Um país inclinado para o mar: O despovoamento intensivo - Paula Custódio Reis
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Um país inclinado para o mar: O despovoamento intensivo

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23.05.2024

Num País inclinado para o mar, a paisagem rural especializa-se num novo tipo de ocupação do solo: o intensivo.
O intensivo traduzido em grandes extensões de monoculturas (nozes, amêndoas, azeite) cuja rentabilidade rápida e maximizada depende em muito da existência de rega também intensiva.
O uso de solo que antes era ocupado com hortícolas, cereais ou criação de gado deu lugar a novas paisagens, com cada vez menos habitantes.
A par da agricultura, a «plantação» de grandes áreas de painéis fotovoltaicos, destrói ecossistemas baseados em manchas de carvalho, azinho ou sobreiro, deixando vazios quilómetros e quilómetros de telhados urbanos que fariam o mesmo efeito em termos de extensão de investimento.
A alteração da paisagem rural, que se alimenta e ao mesmo tempo potencia fatores como o despovoamento, a perda de qualidade dos solos, o uso excessivo........

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