Cata-Ventos: Equívocos da cor da pele |
Cata-Ventos: Equívocos da cor da pele
Costa Alves - 05/03/2026 - 9:02
Possivelmente irei escandalizar alguém se disser que também sou de cor. Sou de cor e ficava abaladíssimo se não fosse. Cor clara, um tanto rosada ou ligeiramente acastanhada - há por aqui antigos e complexos traços morenos de muitas aragens, tantas foram as que atravessaram a nossa História até me gerarem.
Mas, branco, branco, não sou. Sê-lo-ia se a cor da minha pele não se distanciasse da cor da cal ou da folha em que escrevo. Branca é a cara (pintada) do palhaço rico que gozava com o palhaço pobre dos circos que, na minha infância, acampavam na (hoje) avenida 1º de Maio. Branco é o que a galinha põe e branco era o cavalo branco de Napoleão. Branco de cor da pele não conheço.
Confesso dificuldade em expressar-me. Se digo, negro, saliento uma cor da pele que, na verdade, se apresenta entre matizes de castanha e quase preta. Mas, “nigger” seria uma designação considerada insultuosa nos EUA. Se adotasse a preferência norte-americana por “black”, a ofensa seria sentida aqui. Estranho, não é?
Ora vejam como são as coisas. De um momento para o outro, depois do assassínio de George Floyd pela polícia, os nossos canais de televisão passaram a dizer afro-americano onde pronunciavam negro-americano. Todos em uníssono, como é seu uso de Maria vai com as outras.
Continuo confundido. Se digo afro-americano, distingo as origens, em muitos casos seculares, da maior parte dos seus ascendentes. Isto é, acentuo a discriminação, não respeitando a nacionalidade americana dos descendentes dos escravos capturados em África. E a discriminação é tal que não passaria pela cabeça dos canais de televisão referenciarem a ascendência anglo-americana de grande parte da população dos EUA. Muito menos, as fontes natais, anglo e germano-americanas, dos pais de Trump. E, se a notícia também englobasse Melania Trump, poderiam apresentar o casal como euro-americano, seguindo a linha da designação afro-americana que passaram a popularizar.
Recordo que, até ao século XVI, o território era habitado exclusivamente por pessoas que crismámos de índios - mais um equívoco resultante da aventura de Colón
(Colombo, como dizemos cá) convencido de que era o caminho da Índia que ali julgava estar. Para não convocar mais equívocos, nem quero falar das persistentes dúvidas sobre a naturalidade genovesa do navegador.
Na minha adolescência, fartei-me de ler livros e ver filmes de caubóis. Tratavam os nativos por “peles-vermelhas” e os pistoleiros eram implacáveis na conquista dos espaços em que eles sempre viveram. Quanto a nós, “caras-pálidas”, almejamos atingir a cor do bronze, sendo certo que a exposição demorada ao sol causa rubores e semelhanças com tonalidades que, diga-se de passagem, não têm relação cromática com essa liga metálica. Equívocos atrás de equívocos.
Já agora, não esqueço que até houve quem quisesse estender o ferrete das cores à cor do cabelo: “geração grisalha” destratada como “peste grisalha”. Foi há uns anos, aqui, no tal jardim à beira-mar plantado com tantas cores nos campos, nas capas dos livros, no cabelo e na pele das pessoas.
Enfim, lembro a preciosa lição de António Gedeão sobre a “Lágrima de preta”: “Nem sinais de negro,/ nem vestígios de ódio./ Água (quase tudo)/ e cloreto de sódio.”
Quanto ao tema das últimas semanas, aumento o tamanho da esfera dos equívocos, recordando que o dichote racista não tem consequências nas quatro linhas da Assembleia da República. E que, nas arquibancadas, o povo não é sereno e não se refreia quando a cor do racismo vem à baila.