Sexting na adolescência |
A revolução digital aliada à crescente popularidade da Internet e das redes sociais reconfiguraram as dinâmicas da interação social entre os jovens, com impactos de relevo no seu desenvolvimento psicossexual. Neste contexto, fenómenos como o sexting — um neologismo que resulta da junção das palavras sex e texting — ganharam espaço, constituindo-se como uma forma de comunicação baseada na partilha de fotografias ou de vídeos de cariz íntimo e sexual, através de mensagens ou das plataformas digitais.
Frequentemente motivada pela procura de intimidade, satisfação sexual, manutenção de relações românticas ou para despertar a admiração dos outros, esta linguagem de sedução apresenta um risco subestimado por muitos adolescentes, dado repousar numa linha ténue entre a exploração normativa da sexualidade neste período e a exposição às vulnerabilidades da Internet. Tal torna-se evidente na medida em que a natureza volátil da rede proporciona a perda de controlo sobre os conteúdos partilhados, mesmo quando consensualmente, facilitando a disseminação dos mesmos, nomeadamente, através dos grupos de chats e das redes sociais. Assim, uma interação inicialmente privada e consensual pode transformar-se num cenário de exposição pública não consentida.
Facilmente compreendemos que, devido a esta dinâmica vulnerável, o sexting pode estar associado a um sofrimento emocional significativo.
O que sustenta a prática do sexting?A compreensão da prática do sexting implica distinguir entre a exploração normativa da identidade e da sexualidade na adolescência na era digital e os comportamentos que envolvem uma violação das normas sociais, nomeadamente, aqueles associados à violência e à criminalidade digital.
Diversos factores individuais e contextuais, enquadrados na aprendizagem social e no autocontrolo, podem influenciar a prática do sexting. Entre estes, destacam-se as características demográficas, o estilo de vinculação, os traços de personalidade, os fatores cognitivos e sociais (como a pressão dos pares e a vontade de ser popular), a capacidade de regulação emocional e as normas e valores predominantes na cultura em que os jovens se inserem.
Com frequência, o baixo autocontrolo e as dificuldades na regulação emocional dos adolescentes levam-nos a decisões impulsivas, nas quais a gratificação imediata se sobrepõe à perceção do risco. Paralelamente, emergem práticas que se constituem como violência online, caracterizadas pela partilha não consentida de imagens com a intenção de humilhar ou explorar a vítima, podendo estar, também, associadas a intenções predatórias. Entre estas manifestações, destacam-se o slut shaming, o cyberbullying, o stalking, o revenge porn e o grooming, todas formas graves de violência digital com potencial de causar danos graves às vítimas.
Uma atenção especial deve ser dada à extorsão sexual (sextortion), uma forma de intrusão e de coerção, onde o agressor utiliza imagens de natureza íntima ou sexual — reais ou manipuladas — para chantagear a vítima, exigindo o envio de novo conteúdo, a realização de atos sexuais ou o pagamento de uma recompensa, sob a ameaça de divulgação pública das imagens.
Quais são as consequências do sexting?Importa reconhecer que, na percepção de alguns jovens, a prática consensual do sexting pode assumir contornos positivos, como a sensação de prazer, o aumento da popularidade entre pares, a maior facilidade de expressão de sentimentos, a proximidade emocional entre os parceiros e a aceitação do próprio corpo.
Quando não consensual, o sexting pode ter um impacto psicológico potencialmente devastador sobre as vítimas. Entre os efeitos mais comuns encontramos a tristeza, o medo, a vergonha, a ansiedade e a depressão. Em casos mais graves pode ocorrer a perturbação de stress pós-traumático (PTSD).
As consequências negativas podem, ainda, incluir a adoção de comportamentos sexuais de risco, a autolesão, a insatisfação corporal, a exposição a violência online, o envolvimento em relações sexuais sem preparação emocional adequada e níveis elevados de stress. A estas potenciais consequências acrescem possíveis implicações legais, particularmente, em situações que envolvem a partilha de conteúdos íntimos sem consentimento.
Prevenir e protegerA prevenção do sexting exige literacia digital e uma conversa aberta entre pais e filhos que estimule o pensamento crítico sobre a autoproteção, o respeito nas relações interpessoais, a empatia, a importância do consentimento mútuo e os riscos da exposição, tanto morais como legais. Assim, rapazes ou raparigas devem ser encorajandos a:
- Compreender a natureza instável da Internet — uma vez enviado, o conteúdo deixa de lhe pertencer. O que é privado pode tornar-se público;
- Não tirar nem permitir que outros lhe tirem fotografias nu ou quase nu;
- Criar um momento interno de reflexão antes de publicar uma fotografia ou vídeo;
- Praticar o respeito pelo consentimento mútuo e a empatia digital e não reencaminhar uma mensagem de conteúdo sexual;
- Compreender que reencaminhar uma imagem íntima de outra pessoa não é uma brincadeira, mas uma violação de privacidade e, em muitos casos, um crime;
- Refletir sobre as consequências a longo prazo para a sua vida pessoal e profissional.