Inteligência artificial na saúde: sabemos o que ela faz, mas sabemos o que nos tira?

Em 1816, René Laennec inventou o estetoscópio. O instrumento permitia ouvir o que antes era inaudível: o coração, os pulmões, o interior do corpo vivo.

Foi uma conquista médica extraordinária. Foi também o primeiro objeto a interpor-se fisicamente entre o médico e o doente. O toque direto, que durante séculos definira o ato clínico, começou a ser substituído por uma mediação técnica. A prática da medicina ganhou precisão e perdeu proximidade, e ganhou e perdeu ao mesmo tempo, sem que ninguém tivesse deliberado sobre essa troca.

Neil Postman, que se dedicou a pensar a relação entre a tecnologia e a sociedade, defendia que todas as tecnologias carregam esta dualidade: são, simultaneamente, uma bênção e um fardo. Propôs uma pergunta que deveria acompanhar qualquer inovação. Não “o que é que esta tecnologia faz?”, mas algo que nem sempre parece óbvio: “o que é que esta tecnologia desfaz?” É a segunda pergunta que raramente fazemos. E é essa pergunta que devemos fazer sobre a inteligência artificial na saúde.

A história da medicina mostra porquê. Os raios-X, descobertos em 1895, tornaram o corpo transparente sem necessidade de cirurgia. Mas foi adotado com entusiasmo antes de se compreenderem os efeitos da radiação, e o preço dessa transparência levou décadas a revelar-se. O registo clínico eletrónico, que se generalizou no final do século XX, prometia integração e eficiência. Trouxe ambas, mas trouxe também burocracia digital e uma fadiga dos profissionais que ainda não encontraram solução.

O padrão repete-se: cada........

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