Os portugueses da AIMA

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Tudo começou dentro de um carro de transporte por aplicativo, em Lisboa. Ana, a motorista, é portuguesa. Eu era apenas mais um passageiro entre tantos outros que ela transporta diariamente pelas ruas da cidade. Eu tinha pressa e estava atrasado para um compromisso na Avenida Escola Politécnica.

É quase um roteiro — um clichê — que costuma acontecer nessas viagens. A conversa começou por um tema aparentemente banal: o trânsito. Falávamos sobre como dirigir se tornou mais difícil nas grandes cidades do mundo, o excessivo fluxo de carros, a ditadura das SUVs para motoristas solitários parecerem grandes, a impaciência dos condutores e a sensação de que as cidades parecem ter ficado pequenas para tanta gente.

Foi então que algo mudou. O olhar da motorista ganhou outra dimensão no retrovisor. Sem qualquer transição, Ana elevou a voz, ampliou os gestos e pronunciou uma expressão que eu jamais havia ouvido nos últimos anos que visito a cidade por longas temporadas. "Agora, temos os portugueses da AIMA."

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A frase me chamou a atenção imediatamente. Não era apenas uma referência burocrática à Agência para a Integração, Migrações e Asilo. Havia ali uma classificação simbólica. Uma nova categoria humana. Existiam os portugueses. E existiam os portugueses da AIMA.

Compreendi naquele instante que não estávamos mais falando de trânsito. Estávamos falando de imigração. E eu adoro falar sobre o tema, assim como ouvir interlocutores que se predispõe a tocar no assunto.

Vieram então as referências aos muçulmanos, aos paquistaneses, aos hábitos que ela considerava inadequados, aos nômades digitais, aos franceses, alemães, holandeses, escandinavos e americanos. Todos apareciam, de alguma forma, ligados às mudanças que ela percebia em Lisboa.

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