Não foi acaso: o Inverno de 2026 confirma o padrão da crise climática

Portugal atravessou janeiro e fevereiro de 2026 como quem insiste em chamar “acidente” a uma estrada onde os despistes se repetem. Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta não são episódios isolados, mas carruagens do mesmo comboio climático: eventos extremos mais frequentes, intensos e encadeados, exatamente como a ciência prevê para um território exposto a oceanos mais quentes e a uma atmosfera carregada de energia e humidade. O país não foi apanhado de surpresa na verde foi avisado durante décadas.

Kristin foi o rasgão mais visível: ventos acima dos 200 km/h, mortos, feridos, colapso de infraestruturas e cerca de um milhão de pessoas sem eletricidade. Mesmo depois do vento, a tempestade continuou a matar, em acidentes durante reparações improvisadas e no uso inseguro de geradores. Leonardo e Marta chegaram logo depois, encontrando solos saturados, estruturas fragilizadas e populações exaustas, com o chamado “rio atmosférico” trazendo chuva concentrada e confirmando o efeito de dominó climático, onde cada evento amplifica o seguinte.

Ainda assim, persiste o discurso da exceção: “o janeiro mais chuvoso”, como se fosse um parêntesis e não um padrão. Ao evitar nomear a crise climática, adia-se o reconhecimento de um novo normal já instalado na Península Ibérica e no sul da Europa: precipitação concentrada, alternância com secas prolongadas e risco estrutural crescente. O clima mudou; o que continua sem atualização é a resposta........

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