Que Património Nacional queremos?
Há mais de seis anos escrevi, precisamente neste espaço, um artigo a que chamei “Fora de cena quem não é de cena”. Volto hoje ao tema, uma vez que foi aberta, no dia 2 de Outubro, uma consulta pública para a inscrição da corrida de touros no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Seis anos depois, cá estamos outra vez. Ou, pior, estamos num lugar ainda mais absurdo. É que estamos em 2026 e, enquanto alguns dos países e cidades com maior e mais enraizada tradição tauromáquica do mundo discutem como deixar esta violência para trás, Portugal discute se deve protegê-la como património.
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Durante décadas, uma das justificações usadas para defender a tauromaquia foi precisamente a sua antiguidade, a tradição, a cultura, etc. Aquela ideia cansada de que sempre foi assim e de que, portanto, deverá continuar a sê-lo. Como se as sociedades não fossem feitas precisamente de mudança, de coisas que aprendemos, de práticas que abandonamos, de limites que antes não existiam e que um dia decidimos estabelecer. Vou dar alguns exemplos de fora de Portugal, de outros países que ainda têm a tauromaquia como actividade legal.
Comecemos por Espanha. Não é propriamente um país onde a tauromaquia possa ser descrita como um fenómeno cultural periférico. A iniciativa legislativa popular "No Es Mi Cultura" conseguiu mais de 665 mil assinaturas validadas e chegou ao Congresso dos Deputados com um objectivo muito concreto: revogar a lei de 2013 que regula a tauromaquia como património cultural e alterar a legislação relativa ao património cultural imaterial. A iniciativa acabou por ser rejeitada pelo Congresso em Outubro de 2025, é verdade, mas atenção! Em Julho deste ano, dezenas de deputadas/os........
