Do impacto à vulnerabilidade: entender a dependência da Natureza |
As tempestades que atingiram Portugal no início de 2026 deixaram um sinal claro para as empresas: a Natureza não é apenas um alicerce, é a infraestrutura crítica. Em poucas semanas, os prejuízos estimados entre cinco e seis mil milhões de euros superaram em mais de 200 vezes a multa europeia associada ao incumprimento das obrigações da Rede Natura 2000. Mais relevante ainda: uma parte significativa destes danos poderia ter sido evitada.
Este episódio expõe um ponto cego da gestão empresarial, a subavaliação das dependências da Natureza. Muitas empresas evoluíram na mitigação das suas emissões, mas continuam sem compreender até que ponto dependem de ecossistemas funcionais, que providenciam serviços fundamentais, desde a regulação do ciclo da água à proteção contra fenómenos extremos.
Entre 40% e 55% dos prejuízos das tempestades estiveram associados a fatores hidrológicos, como a perda da capacidade natural de solos e bacias para absorver água. Não se trata apenas de um fenómeno climático, mas do resultado acumulado de décadas de degradação de sistemas naturais que funcionam como mecanismos de proteção.
Para as empresas, isso traduz-se em risco direto: infraestruturas expostas, cadeias de fornecimento vulneráveis e custos operacionais imprevisíveis deixam de ser exceções e passam a integrar o contexto base da operação. Como refere Nuno Gaspar de Oliveira, CEO da Natural Business Intelligence (NBI), o risco ecológico está rapidamente a tornar-se risco económico. Mais crítico ainda é o custo da inação: estima-se que Soluções Baseadas na Natureza poderiam mitigar cerca de 15% dos danos observados (centenas de milhões de euros), evidenciando o quanto a gestão necessita de integrar a Natureza na estratégia.
O maior risco que as empresas ainda não medem é estrutural: a dependência da Natureza. A maioria não sabe responder a uma pergunta simples: de que sistemas naturais depende o seu negócio para funcionar? Água, solos produtivos, regulação climática, proteção contra fenómenos extremos. Serviços invisíveis, mas críticos, e que raramente são tratados como tais. Enquanto as emissões são medidas e geridas, as dependências e impactos sobre a Natureza continuam em grande parte por mapear.
Os fenómenos extremos recentes ilustram a realidade. Quando sistemas naturais perdem capacidade de regulação, os impactos deixam de ser absorvidos e passam para a economia. O que antes era amortecido pela Natureza passa a ser suportado pelas empresas, elevando custos, volatilidade e exposição de ativos. Nesse contexto, a Natureza torna-se um fator central de gestão de risco.
Onde existe risco também existe oportunidade. Empresas que antecipem este cenário estão mais bem posicionadas para identificar ganhos de eficiência, inovar e responder a novas exigências regulatórias e de mercado. Integrar a Natureza na estratégia não é apenas mitigar riscos, é criar vantagem competitiva. O desafio está na transição do awareness para a ação, exigindo integração na tomada de decisão, metodologias claras e dados robustos.
Mais do que uma tendência, este é um tema estrutural que vai redefinir como as empresas avaliam risco, alocam capital e constroem a sua estratégia. O verdadeiro risco não está apenas no impacto que a empresa tem sobre a Natureza, mas na dependência que dela existe, sem a conhecer verdadeiramente.
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990