Sobre homens, silêncio e o custo de nunca pedir ajuda

Há uma frase que muitos homens ouviram demasiadas vezes em criança: “os homens não choram”. Parecia um aviso de força. Mas cresceu, ficou colada à pele como uma segunda natureza, e décadas depois transformou-se numa parede entre o que se sente e o que se consegue dizer.

Não é exagero. Segundo dados da Direção-Geral da Saúde (2022), a taxa de suicídio masculina em Portugal é, em média, três vezes superior à feminina, uma tendência consistente nas últimas décadas. Os homens procuram significativamente menos ajuda psicológica, adoecem mais silenciosamente e, quando chegam a algum serviço de saúde mental, chegam já em colapso. O problema não é falta de sensibilidade. É que durante décadas aprenderam que sentir em voz alta é fraqueza.

A masculinidade tradicional não foi uma escolha deliberada de ninguém. Foi uma transmissão cultural, passada de pais para filhos, de professores para alunos, de filmes para rapazes que ainda não tinham ferramentas para questionar o que absorviam. Ser homem significava aguentar, resolver, não incomodar. Qualquer coisa fora desse guião tornava-se motivo de vergonha. E a vergonha, como a psicologia há muito sabe, é o sentimento que mais rapidamente leva as pessoas a esconderem-se.

O resultado vê-se nas relações. Homens que cresceram sem vocabulário emocional chegam às relações afectivas sem mapa. Querem estar presentes, mas não sabem nomear o que sentem. Querem apoiar os filhos, mas repetem padrões que nunca questionaram. Querem pedir ajuda, mas não sabem formular o pedido sem que soe a rendição. Uma revisão sistemática publicada na Clinical Psychology Review, de Seidler e colegas, em 2016, concluiu que a adesão a normas de masculinidade tradicionais é um dos preditores mais consistentes do evitamento de ajuda psicológica nos homens. Não é má vontade. É ausência de treino numa área onde o treino nunca foi permitido.

E o custo é alto. Não só para eles. Para quem os ama também. Parceiros que tentam chegar a alguém que aprendeu a fechar a porta antes de a abrir. Filhos que crescem a imitarem o silêncio. Famílias inteiras organizadas em torno de uma dor que ninguém nomeia, mas toda a gente sente.

Há algo a mudar, e já se move. Homens mais novos falam de terapia sem vergonha, questionam expectativas que pareciam imutáveis e começam a redefinir o que significa ser forte. Esta geração não rejeita a resiliência. Rejeita a ideia de que resiliência implica silêncio. É uma diferença pequena nas palavras, mas enorme na prática.

Mas a mudança cultural é lenta e desigual. Para muitos homens com 40, 50 ou 60 anos, a conversa ainda não chegou. Continuam a carregar sozinhos o que deveria ser partilhado. Continuam a interpretar o pedido de ajuda como sinal de fracasso. E continuam a pagar um preço alto por isso, nas relações que se desgastam, na saúde que cede, nos filhos que aprendem, sem querer, os mesmos padrões.

A sociedade tem também uma parte a assumir. Durante décadas, o sofrimento masculino foi invisibilizado, tratado como ruído de fundo numa narrativa que, com razão, se centrou nos privilégios do género. Ambos podem ser verdade ao mesmo tempo: os homens têm beneficiado de estruturas que prejudicam as mulheres e, simultaneamente, têm sido prejudicados por expectativas que os impedem de ser inteiros. Não é contradição. É complexidade. E a complexidade merece ser tratada com honestidade, não com escolha de lados.

O que é urgente não é criar uma nova armadura, mas perceber que a actual está obsoleta. Não é substituir um modelo rígido por outro, mas abrir espaço para que os homens possam existir com todas as dimensões que já têm, sem que a vulnerabilidade seja lida como ameaça.

Há filhos a crescer agora. Estão a observar. Estão a aprender o que significa ser homem não pelo que lhes é dito, mas pelo que vêem ser feito. E o que mais podem aprender, neste momento, é simples: que pedir ajuda não é o contrário de ser forte. É a forma mais honesta de o ser.


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