Sinto que falta qualquer coisa

Há uma frase que se repete, com variações, nos consultórios de psicologia. Não é uma queixa dramática. Não há um episódio claro, uma perda identificável, um momento de ruptura visível. A frase é simples e, por isso, mais desconcertante: "Sinto que falta qualquer coisa."

Quem a diz, muitas vezes, tem emprego, família, saúde e uma vida que, vista de fora, parece funcionar. Não chegaram ao consultório por crise aguda. Chegaram por um cansaço que não passa com férias e por uma sensação difusa de estarem a viver sem habitar verdadeiramente a própria vida. Segundo o Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental, cerca de um em cada cinco portugueses sofre de uma perturbação mental ao longo da vida. Mas por cada pessoa que chega à clínica, há muitas mais que continuam a funcionar, em modo automático, sem perceber bem o que está a falhar.

A psicologia moderna tentou responder a isto de várias formas. Durante décadas, o modelo dominante confundiu bem-estar com ausência de sofrimento. Menos ansiedade, menos tristeza, menos conflito: mais felicidade. A equação parecia razoável. Mas a........

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