Alterações climáticas não podem ser desculpa para má gestão do território |
Há uma forma particularmente cómoda de falar de alterações climáticas: usá-las como explicação total para tudo o que falha no território. Falta água? Alterações climáticas. Cheias rápidas? Alterações climáticas. Erosão severa? Alterações climáticas. Fogos mais violentos? Alterações climáticas.
O problema desta narrativa não está em reconhecer a crise climática. Essa crise existe e está a agravar extremos. O problema está em usar essa realidade como biombo para esconder décadas de má leitura da paisagem, decisões erradas de uso do solo, drenagens mal resolvidas, infra-estruturas mal implantadas e uma visão administrativa do território que raramente coincide com o seu funcionamento ecológico real.
Em demasiados casos, não estamos perante desastres naturais inevitáveis. Estamos perante territórios desenhados contra a água, contra o solo e contra a lógica da própria paisagem.
Portugal conhece bem este padrão. O diagnóstico é conhecido: desertificação, perda de solo, abandono rural, redução de caudais, vulnerabilidade extrema ao fogo. O ponto de partida é precisamente esta urgência territorial e a evidência de que o colapso ecológico já não é um cenário futuro; é uma realidade instalada em muitas paisagens do país.
O território falha antes da tempestade
Há um erro de base na forma como se discute resiliência climática. Fala-se como se o território fosse uma superfície passiva à mercê da meteorologia. Não é.
Um território responde em função da sua estrutura. Responde conforme a qualidade do solo, a cobertura vegetal, a forma como infiltra ou rejeita água, o modo como distribui energia, a posição dos acessos, a organização das zonas produtivas, o estado das linhas de drenagem e a continuidade dos processos ecológicos.
Quando tudo isto está degradado, basta uma chuvada mais intensa para expor a fragilidade. E então chega a explicação rápida: “foi o clima”.
Mas a verdade é mais incómoda. Em muitos casos, o........