menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Ruas porticadas

18 0
22.03.2026

Se a cidade é a grande obra da humanidade, as ruas porticadas talvez sejam a sua menção especial. Um notável esforço de conjunto, continuado no tempo e no espaço por proprietários, reguladores e arquitectos. Como uma corrida de estafetas em que cada edifício continua onde o anterior pára; basta uma edificação para destruir a obra colectiva. Um delicado equilíbrio entre espaço público e propriedade privada.

Existem muitas praças com galerias públicas, mas poucas cidades com extensões consideráveis de ruas porticadas. Lembro-me de todas onde estive: Évora, Santiago de Compostela, Berna, Alcalá de Henares, Havana, Pádua, Ciutadella de Menorca ou Bolonha, que é tida como a rainha neste domínio.

As vantagens são evidentes: medeiam a rua e os edifícios expandindo o precioso espaço público, oferecendo protecção da chuva e do sol, criando espaços comerciais de excelência. Muitas dão origem a entrepisos ainda a abrir para debaixo das arcadas, especialmente adequados para funções de apoio às lojas. Nos pisos superiores todo o programa é bem-vindo, incluindo habitação, cujas janelas podem abrir directamente para as ruas arejadas.

Há várias teorias para a origem desta tipologia. Embora partam de princípios opostos, o resultado é igual. Uma defende que se trata de balanços sobre a via pública que se foram tornando maiores e maiores até que, a certa altura, surgiram colunas de apoio sobre a via pública. Ou o inverso: que, no fundo, se trata de um recuo do piso térreo gerando uma loggia contínua que acabou por se tornar espaço público.

A atmosfera é ditada pelo perfil da galeria: desde arqueados baixos de apenas um piso, de proporção quase quadrada ou mesmo horizontal, como em Berna, Évora ou Alcalá, passando por elegantes colunatas de dois ou mais pisos, de escala nobre e generosa, como em Bolonha ou Havana. Neste último caso, recordo a graciosidade com que diversas épocas e estilos arquitectónicos totalmente distintos se comprometeram com esta configuração, podendo observar-se, num único troço, galerias neoclássicas de estilo colonial lado a lado com pórticos de cuidado desenho modernista, até exemplares anónimos do mais vernacular, sempre em continuidade.

Em planta, o traçado tanto pode ser clássico, regular e iluminista, como orgânico e ziguezagueante, ora apertando ora alargando, sem clara hierarquia entre zona de rua e zona coberta, como em Ciutadella de Menorca.

O pavimento das galerias é uma questão central, jurídica até. Numas, é demarcado através de um ou dois degraus, dando uma sensação de espaço semiprivado, como um alpendre contínuo. Noutras não se observa qualquer ressalto entre rua e galeria, encontrando-se apenas as subtilezas de cada solução de pavimento, que tanto pode ser um betuminoso económico como um nobre lajedo de pedra. A solução mais rara de observar é, no entanto, a que pareceria mais óbvia e natural: sem qualquer distinção entre pavimento de rua ou de galeria, maximizando a sensação de espaço público expandido, apenas interrompido nos pontos em que as colunas tomam o necessário para as fundações.

Um edifício que oferece uma galeria pública coberta talvez seja o derradeiro acto de generosidade arquitectónica. Certo é que se deixou de construir ruas porticadas. A crescente judicialização do urbanismo pode ter contribuído: lotes e parcelas perfeitamente delimitadas e com jurisdições claras, sem sobreposições ou ambiguidades.

Já passou o tempo em que se construíam cidades do zero a régua e esquadro, pelo que é previsível que este tipo de arruamentos tenha poucas possibilidades de voltar a ser implementado, para além de uma qualquer operação imobiliária mais musculada — como um grande quarteirão — mas que depois não encontra continuidade no tecido urbano envolvente. Seria interessante imaginar que no pós-aeroporto de Lisboa, na prometida cidade-nova que aí poderá florescer, esteja a rara oportunidade para voltarmos a ter um expressivo pedaço de cidade com ruas integralmente feitas de generosos e elegantes pórticos.


© PÚBLICO