Dia da Terra: a nova (a)normalidade |
Este inverno foi percorrido por um verdadeiro comboio de tempestades. O resultado foi um dos anos hidrológicos mais chuvosos desde que há registo — o sexto desde 1931 — e um mês de fevereiro que se tornou o mais chuvoso dos últimos 47 anos, com níveis de precipitação três vezes acima da média.
Estaremos perante o fim das alterações climáticas? Poderão finalmente os negacionistas cantar vitória?
Menos de um mês depois, o país já assistia a incêndios no Parque Nacional da Peneda-Gerês, combatidos por mais de uma centena de operacionais. A realidade é outra: vamos ter de aprender a viver com esta nova (a)normalidade. O que estamos a observar não é a ausência de alterações climáticas, mas a sua expressão mais clara — um sistema mediterrânico que perde o seu equilíbrio e passa a oscilar entre extremos, por vezes no espaço de semanas.
Em 2015 foi assinado o Acordo de Paris e, menos de uma década depois, o mundo entrou numa nova fase. Os anos de 2023, 2024 e 2025 estão entre os mais quentes desde que há registo, com 2024 a ultrapassar pela primeira vez o limiar de 1,5°C em termos anuais. E, ainda que esse limite não tenha sido formalmente ultrapassado como média de longo prazo, tudo indica que nos aproximamos rapidamente desse ponto. Ao mesmo tempo, surgem sinais da possível formação de um novo El Niño, o que poderá amplificar ainda mais esta tendência nos próximos anos.
No meio disto tudo, talvez o fenómeno mais extremo seja outro: a forma como desvalorizamos o que está à nossa volta. Discursos negacionistas continuam a ganhar espaço, enquanto se assiste a um progressivo esvaziamento da arquitetura ambiental europeia construída ao longo de décadas. Metas são flexibilizadas, prazos adiados, compromissos transformados em meras intenções.
Só em 2023, num contexto fortemente marcado pela guerra na Ucrânia e pela crise energética que se seguiu ao pico registado em 2022, a União Europeia canalizou cerca de 110 mil milhões de euros para subsídios aos combustíveis fósseis — um valor equivalente a mais de um terço do PIB português. E tudo indica que, com o agravamento das tensões geopolíticas associadas ao Irão, 2026 poderá voltar a marcar novos máximos.
Importa também lembrar que a União Europeia continua longe de ser autónoma: importa cerca de 55% a 60% da energia que consome e depende fortemente do exterior para componentes essenciais da sua produção alimentar, incluindo 70% a 75% das proteínas vegetais usadas na alimentação animal. Neste contexto, a tendência para privilegiar respostas de curto prazo, muitas vezes ao sabor de pressões políticas imediatas, revela uma dificuldade crescente em alinhar decisões com os desafios estruturais que enfrentamos.
A Europa continua a ser, à superfície, uma das regiões mais igualitárias do mundo. Mas, por baixo dessa aparência, a distância entre o topo e a base vai-se alargando — não de forma abrupta, mas constante, quase impercetível, até deixar de o ser. E tal como o declínio de Roma não foi um colapso súbito, mas uma perda gradual de capacidade de resposta, também a Europa de hoje, ainda longe desse destino, enfrenta um risco semelhante: o de não conseguir agir à altura dos desafios que reconhece.
E soluções? Como mitigar a crise climática e, ao mesmo tempo, reforçar a autonomia e relevância da União Europeia no contexto global? Talvez começando por fazer exatamente o contrário do que temos vindo a fazer. Para começar, recuperar a ambição inicial do Pacto Ecológico Europeu — hoje progressivamente diluída — e recolocar cidadãos e ambiente no centro das decisões.
Neste Dia da Terra, cabe-nos recentrar o debate. Porque, no fim, a Terra — com os seus 4,5 mil milhões de anos — continuará a existir. A questão é se estaremos cá para a acompanhar.
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990