De 155 milhões a zero |
Em 2022, a Serra da Estrela ardeu. O incêndio consumiu cerca de 25 mil hectares, numa das maiores áreas ardidas de que há memória naquela região. Meses depois surgiu um Relatório de Lições Aprendidas e foi anunciado um Plano de Revitalização da Serra da Estrela no valor de 155 milhões de euros. Quase quatro anos depois, o que aconteceu? Muito pouco. Em muitos aspetos, zero. Pior do que zero, porque em 2025 voltou a arder.
Este padrão repete-se em Portugal com uma consistência impressionante. Após cada grande catástrofe — incêndios, cheias ou tempestades — a narrativa é sempre a mesma: o Governo em funções anuncia uma revolução, apresenta planos ambiciosos, promete milhões, anuncia reformas e garante que “desta vez é diferente”. Passado o tempo mediático e político, a realidade instala-se: quase nada muda.
Foi assim nas cheias do Mondego no início do século, nos incêndios de 2017, na tempestade Leslie e estamos a ver novamente com os incêndios de 2025 e com a tempestade Kristin. O país reage sempre, mas raramente aprende.
O problema é estrutural. A primeira dimensão é a cultura centralizadora do Estado português, que continua a achar que consegue desenhar soluções a partir de Lisboa para territórios profundamente diferentes entre si. Não consegue. E a prova está à vista: décadas de políticas florestais, agrícolas e de ordenamento do território desenhadas de forma centralizada não travaram o abandono rural, não reduziram o risco de incêndio e não aumentaram a resiliência das paisagens.
A segunda dimensão é a dificuldade crónica em trabalhar com os agentes do território e com as comunidades locais. O caso da Serra da Estrela é paradigmático. O incêndio de 2022 afetou sobretudo territórios de baldios — terras comunitárias geridas pelas populações locais, que são, em muitos casos, as entidades com maior capacidade, conhecimento e interesse em gerir aqueles territórios. No entanto, quando chegou o momento de desenhar soluções e definir prioridades, estas comunidades não foram parte da solução.
A terceira dimensão é simples: revitalizar uma serra não é construir mais. No entanto, é isso que este plano propõe. É gerir melhor a paisagem, e esse trabalho só pode ser feito com quem lá vive e gere o território todos os dias. Revitalizar é criar mosaicos de gestão, apoiar a pastorícia, a agricultura de montanha, a silvicultura de espécies diversas e reforçar a gestão comunitária. É criar economia local ligada à gestão do território. Revitalizar é investir nas pessoas e na paisagem, não apenas no betão. E isso só se faz com as comunidades, não para as comunidades, nem apesar delas.
A lição mais importante que Portugal continua por aprender é simples: a resiliência do território não se constrói depois das catástrofes com planos anunciados em conferências de imprensa. Constrói-se antes, com políticas consistentes, com financiamento estável, com poder local e com confiança nas comunidades. Em Portugal não faltam relatórios, planos, estratégias, reformas e programas. O que falta é executar. E enquanto continuarmos a confundir anunciar com fazer, continuaremos presos a este ciclo de catástrofe, anúncio, plano, esquecimento e nova catástrofe.
Se continuarmos com esta visão desligada da realidade e muito pouco prática, o resultado será o mesmo de sempre: anunciam-se milhões, executa-se pouco, a paisagem não muda, o território continua vulnerável, e voltamos a arder.
De 155 milhões a zero não é apenas o falhanço de um plano. É o retrato de um país que reage muito, mas transforma pouco. Centralizamos decisões e descentralizamos consequências. E enquanto assim for, quem paga não é o Governo nem são os planos. É o território, são as pessoas e é a coesão do país.
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990