O livro como caminho de retorno à voz interior

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Há livros que não entram em nossa vida pela via da informação. Eles chegam como espelhos, atravessam defesas, deslocam certezas e nos colocam diante de zonas internas que, muitas vezes, passamos anos evitando. Mulheres Que Correm Com Os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, pertence a essa categoria. Não se trata apenas de uma obra sobre mitos, contos e arquétipos. Se trata de uma travessia pela memória psíquica das mulheres, por aquilo que foi silenciado, domesticado, interrompido ou adaptado em nome da aceitação.

Ao longo da vida, muitas mulheres aprendem a negociar a própria presença. Aprendem a medir a voz, a conter o desejo, a pedir licença para existir, a suavizar opiniões, a transformar intuição em dúvida e cansaço em virtude. Esse processo nem sempre ocorre de modo consciente. Ele se instala em pequenas concessões, em frases herdadas, em expectativas familiares, em modelos de amor, trabalho, maternidade, sucesso e aparência. Com o tempo, a mulher pode se tornar eficiente para o mundo e estrangeira para si mesma.

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A força do livro está justamente em devolver linguagem a esse afastamento. Quando Clarissa Pinkola Estés fala da mulher selvagem, não está convocando uma fantasia de ruptura sem consequência,........

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