A IAtização da linguagem e da nossa capacidade de criar o mundo
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Se você, leitor, como eu, tem desenvolvido uma alergia ao ler textos claramente escritos com Inteligência Artigficial (IA) — de e-mails a colunas de jornal, como foi recentemente polemizado no caso da colunista Natália Beauty, influenciadora que escreve orgulhosamente suas colunas para a Folha de S. Paulo com IA — venha cá e me abrace. Pode vir, esses “-“ eu coloquei, não o ChatGPT.
No começo, confesso, também achei prático. Responder aqueles e-mails chatos que costumavam levar horas passou a ocupar dez minutos do meu dia. O sonho de ter uma secretária (a funcionária, não a mesa) bem baratinha: custava apenas o aquecimento global acelerando, vertiginosamente. Dizem que “vertiginosamente” é uma das palavras que o ChatGPT mais usa. Sinto muito: eu também.
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Com o tempo, comecei a perceber uma agonia crescente. Uma dificuldade em escrever sem ajuda. Primeiro, uma revisão, depois, um conselho, a seguir, uma sugestão de tom. Aos poucos, desenvolvi um ódio específico ao falar com máquinas. Aquele mesmo ódio que sentimos quando ligamos para o banco e caímos no atendimento virtual que não entende nada do que queremos, enquanto um atendente humano resolveria em dois minutos. Que solidão terrível.
Pior: comecei a desconfiar profundamente das pessoas que me mandavam e-mails ChatGPTizados. Alguns colegas passaram a ser máquinas. Que saudade daquele e-mail escrito “ok”, ao invés de sete linhas que não dizem nada. Pior ainda: comecei a desconfiar de mim mesma quando fazia o mesmo. E a sentir uma vergonha imensa depois de fazê-lo.
Mais grave, percebi uma vontade incontrolável de escrever frases como “não é sobre insira aqui qualquer coisa, é sobre insira aqui outra”. Sinal óbvio de que a máquina está invadindo a minha capacidade de nomear e articular o mundo.
Um filme de terror para escritores adultos.
Um dos argumentos de quem defende o uso da IA para escrita é o de que “a ideia é humana, o ChatGPT só escreve”. Mas pensamento e linguagem são separáveis? Ou linguagem é pensamento e vice-versa? “As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo”, escreveu Ludwig Wittgenstein. Estamos diminuindo vertiginosamente (aqui ela!) nosso universo quando diminuímos nossa capacidade de escrever, de organizar e de criar.
Uma parte de mim, como Natália Beauty, também está exausta, com pressa, incapaz de dar conta de todas as demandas. Pensa que usar IA para escrever talvez acalme essa ansiedade. Talvez me dê mais tempo. O resto de mim sabe que o tempo é justamente o espaço da criação e não há “perda”, há escolhas de como ocupá-lo.
No cerne, esta discussão é sobre a vida no capitalismo tardio e o trabalho — não só o literário. Para quê essa pressa? Não é justamente o fazer que nos dá a capacidade de continuar fazendo? Não é isso o estar vivo?
Também argumenta-se que é “medo de tecnologia” não usar o recurso para comunicação. Tal como matemáticos usam calculadoras. Penso nas pessoas que fazem matemática de forma criativa, como linguagem. E em textos sem brilho literário ou jornalístico, como tabela de co-senos.
“Estou farto do lirismo namorador/Político/Raquítico/Sifilítico/De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo./De resto não é lirismo/ Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.” escreveu Manuel Bandeira.
Não quero escrever como quem faz contas na calculadora — nem ler. A vida e a linguagem não são um problema a ser resolvido fora de nós mesmos. São nosso Universo.
