“Não é não”, Europa?

As categorias políticas tradicionais deixaram de fazer sentido na Europa de hoje – a mesma Europa onde a extrema-direita já não precisa de longas travessias eleitorais no deserto nem de maiorias formais para se traduzir em poder. Avança por infiltração, normalização e captura incremental das instituições. A diferença já não se mede apenas em anos, mas na resiliência das instituições que, desde o pós-guerra, funcionavam como um firewall moral. O cordão sanitário – pacto tácito entre partidos democráticos para manter fora do governo forças xenófobas ou revisionistas – foi uma das invenções políticas mais eficazes do século XX, afastando o fantasma de uma nova barbárie num continente traumatizado pelo fascismo. Hoje, em muitos países, o que era uma barreira robusta tornou-se um símbolo de impotência. Um muro em ruínas.

A França exemplifica essa fragilidade. O Rassemblement National de Marine Le Pen acumula avanços eleitorais desde 2017. Mas, apesar de continuar excluído da governação, o partido normaliza-se, aproximando-se das elites económicas e políticas, como Vincent Bolloré ou Nicolas Sarkozy. Jordan Bardella, escudeiro de Le Pen e herdeiro da extrema-direita, prepara-se para disputar as eleições presidenciais em 2027 – e arrisca-se a ganhar.

A marginalização política, portanto, está longe de ser suficiente. Isoladamente, pode reforçar o ressentimento e cristalizar duas narrativas, duas sociedades que se imaginam irreconciliáveis: a cosmopolita e a periférica. O cordão sanitário não impede a ascensão de um partido que se apresenta como economicamente credível e socialmente moderado. De forma semelhante, a Alemanha mostra que a exclusão prolongada não impede, por si só, a normalização eleitoral: a AfD tornou-se, em 2025, o segundo maior partido no Bundestag.

Se o caso francês e alemão revelam os limites do isolamento, a Áustria expõe os riscos da integração e da normalização. O........

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