Génesis benfiquista |
No princípio era o verbo. E o verbo era Ganhar.
O meu Pai era um homem de Fé. De Fé, sobretudo, no Sport Lisboa e Benfica.
Recordo-me de ser criança e do seu ritual dominical. Ele ia buscar todos os meus peluches e dispunha-os à frente da televisão, alinhados com exactidão. Não podiam estar dispersos, não podiam cair, não podiam virar-se de costas para o ecrã. Todos tinham de ver. Todos tinham de testemunhar.
O cachecol vermelho, dobrado com cuidado, era como filactério colocado junto ao coração. E eu aprendi os preceitos benfiquistas como se aprendesse os mandamentos: se o Benfica marca, não te mexas, se sofre, não blasfemes, se o árbitro erra, aceita que os caminhos da justiça são insondáveis.
E o meu Pai era guardião do calendário, intérprete de classificações, vigilante das jornadas, escriba das médias de golos. Aprendi cedo que o humor de um homem podia depender de um remate ao poste, e que a esperança se renovava sempre na jornada seguinte. Aprendi que a fidelidade não se suspende por derrota, nem se vende por vantagem momentânea. No fim de cada jogo, o meu pai faz sempre uma homília.
No dia do meu baptismo, uniram-se duas cerimónias. Levaram-me à igreja, envolta em rendas claras. O sacerdote pronunciou palavras antigas. A água foi derramada sobre a minha cabeça, e disseram o meu nome em voz alta. Mas, nesse mesmo dia, o Benfica enfrentaria o Sporting e venceria por 6-3. Desde então, qualquer referência ao meu baptizado é acompanhada por uma menção a este outro sacramento. E assim ficou escrito na memória familiar, o registo paroquial e o boletim do jogo para sempre na mesma página. Fui baptizada na fé cristã e na fé encarnada. Ambas as coisas foram celebradas. Eu tinha cinco meses, mas desconfio qual mereceu mais entusiasmo paterno.
Também houve pecado na minha infância. Porque um tio ofereceu-me uma bicicleta reluzente como fruto proibido, e eu, que tinha quatro anos e pouca convicção, consenti em trocar de clube por duas rodas e um sino tilintante. Recebi a bicicleta com júbilo. Fez-se silêncio na casa paterna, silêncio espesso como trevas. Esse foi o dia em que fui expulsa do paraíso. E o meu pai não me falou durante um dia inteiro. E compreendi que há alianças que não se trocam por metal pintado, e regressei ao Benfica como quem regressa à terra prometida.
Mas eis que o tempo passou, e eu me afastei das Escrituras da Bola. Continuei a dizer “nós” quando falava do Benfica, mas já não sabia exactamente quem éramos. Foi o meu Êxodo. Quando voltei a perguntar pelos nomes dos jogadores, ninguém era já reconhecível. Eu fiquei parada no Antigo Testamento, na era de Luisão. Recordo-o, alto como coluna do templo, firme como cedro do Líbano. E eu cria que jamais cairia, que os seus passos seriam eternos sobre a relva. Os anos passaram e eu permaneci nas antigas Escrituras, enquanto novas gerações entravam em campo.
Pois bem, ontem, anos passados, recebi um chamamento para uma nova peregrinação. E lá fomos, pai e filha, em direção à Luz.
Descemos primeiro ao metro, as catacumbas antes da revelação.
Seguimos até ao Alto dos Moinhos, uma promessa de elevação. Era ali que se iniciava a ascensão. A multidão engrossava. Subíamos as escadas rolantes em procissão ordenada. Cada degrau aproximava-nos do recinto. À saída, vendedores erguiam cachecóis e bandeiras, e os panos vermelhos ondulavam ao vento como estandartes. O nome do clube era pronunciado em coro. Havia crianças aos ombros dos pais. Havia homens já roucos antes do início. Havia murmúrio crescente, assembleia que se reúne antes da proclamação.
E vi multidões vestidas de vermelho, como se sangue comum lhes percorresse as vestes. E ouvi cânticos que eram salmos, e impropérios que eram lamentações, e promessas que eram votos solenes.
E o meu Pai comprou-me um cachecol. Colocou-o nas minhas mãos. E enrolei-o ao pescoço, um manto sagrado, e senti o peso da herança.
Quando entrámos no estádio, o relvado abriu-se diante de mim verde e perfeito como jardim recém-criado. E as bancadas erguiam-se em círculos como anfiteatro. E ouvi o rumor da multidão crescer como mar antes da tempestade. E quando a águia sobrevoou o campo, desenhando círculos amplos sob a luz, pareceu-me visão apocalíptica, sinal nos céus que antecede o combate. Um clamor que subiu aos céus.
Quando o Benfica avançava, a multidão inclinava-se para a frente como campo de trigo sob o vento, e quando falhava, erguia-se um gemido colectivo, num lamento sonoro.
E eu, mulher inquieta, mulher de interrogações, fiz perguntas em excesso, quebrando o silêncio sagrado da concentração. E o meu Pai respondeu com paciência curta, porque está escrito: “Não distrairás o crente no momento da grande prova.” Eu interroguei em momento impróprio:
— Quem é aquele?— Já não joga o outro?— O treinador pode ser expulso?
Maldito aquele que distrai o justo na hora do remate.
Ontem, o Verbo não se fez cumprir. E no fim descemos novamente ao metro, regressando do Alto dos Moinhos à planície da vida comum. O meu Pai caminhava ao meu lado. Não falou muito, certas comunhões não exigem palavras.
Naquele silêncio do meu pai havia algo que eu reconhecia desde a infância: uma derrota não suspende a Fé.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990