menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Génesis benfiquista

17 0
18.02.2026

No princípio era o verbo. E o verbo era Ganhar.

O meu Pai era um homem de Fé. De Fé, sobretudo, no Sport Lisboa e Benfica.

Recordo-me de ser criança e do seu ritual dominical. Ele ia buscar todos os meus peluches e dispunha-os à frente da televisão, alinhados com exactidão. Não podiam estar dispersos, não podiam cair, não podiam virar-se de costas para o ecrã. Todos tinham de ver. Todos tinham de testemunhar.

O cachecol vermelho, dobrado com cuidado, era como filactério colocado junto ao coração. E eu aprendi os preceitos benfiquistas como se aprendesse os mandamentos: se o Benfica marca, não te mexas, se sofre, não blasfemes, se o árbitro erra, aceita que os caminhos da justiça são insondáveis.

E o meu Pai era guardião do calendário, intérprete de classificações, vigilante das jornadas, escriba das médias de golos. Aprendi cedo que o humor de um homem podia depender de um remate ao poste, e que a esperança se renovava sempre na jornada seguinte. Aprendi que a fidelidade não se suspende por derrota, nem se vende por vantagem momentânea. No fim de cada jogo, o meu pai faz sempre uma homília.

No dia do meu baptismo, uniram-se duas cerimónias. Levaram-me à igreja, envolta em rendas claras. O sacerdote pronunciou palavras antigas. A água foi derramada sobre a minha cabeça, e disseram o meu........

© PÚBLICO