O presente que transborda

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Certa vez, li o romance Inglaterra, Inglaterra, de Julian Barnes. Nele, uma equipe de consultores, arquitetos e publicitários planeja a construção de um parque temático, espécie de “Inglaterra em miniatura”, que oferecerá ao turista tudo que o país tem, só que de forma concentrada e mais ordenada. Nesse local — uma ilha —, seria possível atravessar a faixa de pedestres de Abbey Road, caminhar pela floresta de Sherwood e contemplar Stonehenge sem deslocamentos cansativos. Durante uma reunião de brainstorming, um dos consultores formula o princípio segundo o qual o turista não quer o desconhecido; ele quer apenas reconhecer in loco o que já esperava encontrar.

Fiquei pensando que se transpuséssemos essa ideia espacial para a esfera do tempo, teríamos um empreendimento em que todos os acontecimentos históricos seriam oferecidos ao consumidor (ou turista temporal) de forma concentrada e sem causar excessivo estranhamento. A história que estudamos em algum momento, ou que assistimos no cinema, estaria agora ao nosso dispor, da Batalha de Salamina à Guerra do Vietnã, em cenas e enredos bem organizados, que nos permitiriam sair da rotina sem deixar a zona de conforto.

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Mas, enquanto se reduz a intensidade do passado, exagera-se na do presente. A sensação que temos hoje é de estar vivendo (e não apenas assistindo) a metamorfose do mundo. Aqui e agora. Cada fato novo do cotidiano é um “momento histórico”. Tenta-se convencer as pessoas de que o evento mais trivial é um acontecimento notável na “grande aventura da humanidade”.

Cada dia a ser vivido contém a promessa de um divisor de águas, um marco no fluxo indiferente do tempo. Não que a maioria dos indivíduos se importe com a trajetória da espécie; o que interessa é a sensação de prestígio suscitada pela proximidade com algo considerado determinante. Alguém que tenha tido um amigo morto no atentado às Torres Gêmeas, em 2001, sente-se superior a outro cujo amigo foi atropelado ali na esquina.

Quando víamos a história de longe, nos perguntávamos: como foi que eles sobreviveram ao dilúvio? Como foi que fizeram a revolução? Como descobriram o novo mundo? Sabemos que houve um dia em que Roma era pagã e depois um dia em que era cristã. Um dia em que as forças nazis dominavam a Europa e um dia em que haviam sido derrotadas.

Contudo, jamais pudemos sentir essas mudanças acontecendo. Agora a hipermídia nos oferece gêneses e apocalipses diários. Somos testemunhas — quem sabe até protagonistas — de fatos que viram história antes de amadurecer. E devemos ficar muito excitados com isso, pois significa que temos lugar garantido nos livros do futuro.

Agora que todos os momentos são excepcionais, não conseguimos mais levar um susto e voltar à vida normal, ao ritmo pausado de antes. A vida é um susto só. O cotidiano desaparece sob uma sequência interminável de fins de mundo. Só que, como no Disco de Newton, em que o movimento de todas as cores do espectro resulta no branco, quando tudo é excepcional, nada é excepcional de verdade.

E, afinal de contas, para que tanta excepcionalidade? Desconfio que para acordar a horda de zumbis entediados que nos tornamos. Os zumbis precisam levar choques de alta voltagem para não desistir, para continuar seus movimentos de sempre.

Tanto a afirmação do marqueteiro de Julian Barnes quanto a realidade saturada de momentos históricos parecem apontar para uma alteração radical na experiência do tempo. Queremos um passado domesticado e um presente furioso. Passado anêmico, presente inflamado. São, na verdade, dois lados da mesma fraude, do mesmo vazio, em um mundo que parece estar dominado pelo presente. Um imenso presente que transborda para trás e para adiante.


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