Espelho

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Talvez o melhor da leitura seja o diálogo do leitor com o livro. Quando o leitor é ele próprio um escritor, aí é que o diálogo pode mesmo abrir horizontes inesperados e sugerir infinitos desdobramentos. O autor encontra no texto a possibilidade de desenvolver ideias que no texto foram apenas esboçadas, de pavimentar sendas rascunhadas na terra, ou de seguir em direção diametralmente oposta a partir de um mesmo ponto.

Eu andava desassossegado pelas ruas da Baixa, pensando em Bernardo Soares e no que ele escreveu sobre o espelho. Para ele, Bernardo/Fernando, o espelho causou a desgraça do homem. Atirou ao lixo o dom que a Natureza lhe deu de ser incapaz de ver a própria cara, de não poder fitar os próprios olhos. “O criador do espelho envenenou a alma humana”, diz ele, advogando, portanto, que o espelho teve um criador e que esse constrangeu o homem a enxergar ali o seu reflexo. O espelho teria sido posto diante da face do homem contra a sua vontade, como uma armadilha que o capturou para sempre.

Mas para mim, o espelho foi desejado desde o princípio, antes do primeiro gole sorvido de uma lagoa cristalina. Afinal, como alguém cujo corpo comprovadamente se prolonga para além do visível, elevando-se acima dos ombros, poderia não ter a curiosidade de ver-se em sua totalidade? Tenho para mim, portanto, que o homem sempre desejou o espelho. Ansiava por ele.

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Fiquei a imaginar essa pessoa primitiva, às voltas com a fronteira entre o que se pode ver o que não se pode ver de si mesma. Ela vê os pés, as pernas, o tronco, os braços, as mãos na hora em que quer, sem esforço. Com um giro de cabeça (a cabeça que jamais viu) tem acesso aos ombros, aos flancos e à parte posterior das pernas. O limite localiza-se precisamente nas clavículas. Ali o corpo começa e termina. Para cima, só existe a paisagem. A paisagem e os outros. A paisagem, os outros e, bem, vá lá, umas mechas de cabelo, que não deviam ser cortados com muita frequência. Sente inveja dos outros. Os outros são mais completos. Além de possuírem mãos e pés que podem ser examinados em detalhe – para que o nosso homem se certifique de que são iguais aos seus –, os outros podem ser observados de costas, revelando partes que nele permanecem inéditas. Assim, não é difícil para o nosso homem presumir que, sendo os outros tão semelhantes a ele em todos os aspectos, ele carregue sobre as clavículas peças idênticas às daqueles que observa.

Para comprovar sua hipótese, o ancestral pode valer-se de outros sentidos, em particular do tato, percorrendo com as mãos seu pescoço e sua cabeça para, num exercício complexo de transposição intersensorial, confirmar com a visão algo que conheceu pelo toque. Ou, se isso não for o bastante, apalpar quantos rostos forem necessários até se convencer do parentesco com o seu próprio rosto. Poderá, ainda, perguntar ao outro se o que vai sobre seus ombros é similar ao que vai sobre os ombros do outro. O outro não terá resposta a essa pergunta pelo simples fato de que não sabe o que vai sobre seus próprios ombros. Diante de tantas incertezas, numa situação em que cada um depende do outro para conhecer a si mesmo, será necessário confiarem-se mutuamente.

Assim, só consigo imaginar a avassaladora curiosidade do homem de conhecer o próprio corpo para além dos confins do visível. Ele é o único responsável por sua afeição ao espelho, não sendo o tal criador nada mais que um mero catalisador dos seus sentimentos latentes. Alguém para se culpar e responsabilizar por tudo o que der errado depois: eis sua função.

O melhor da leitura é mesmo o diálogo do leitor com o livro. E do espectador com o filme também. Numa de minhas cenas favoritas de Dracula de Bram Stoker, de Coppola, os três pretendentes e amigos de Lucy Westenra lamentam seu destino, corrompida contra a própria vontade pelas forças malignas do Conde Drácula. Para eles, Lucy foi uma jovem frágil e inocente. Até que intervém na cena o professor Van Helsing, que, de forma brutal, despedaça o sentimentalismo dos outros homens ao retratar a suposta vítima como alguém que desejou sua sinistra transformação: “Ela era a concubina do Diabo!”.


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