Museus nacionais, conceitos e práticas |
Foi recentemente lançado um número da Revista de Museus dedicado à celebração da democracia nos museus portugueses. Um volume de antologia, pelo que tem de substantivo e pelo que manifesta de foco e filtragem de um presente “oficialista” sobre o passado próximo. Coube-me aí discorrer sobre museus nacionais: todos os portugueses, apenas alguns, quais? E com que racionais técnicos e políticos?
Já que de balanço em democracia se trata, faz sentido começar por denunciar um mito muito arreigado: o do suposto amor do salazarismo ao património cultural. Sim, alguns castelos integravam as vinhetas da “lição de Salazar”; e sim, a omnipotente Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais realizou obra extensa e meritória — embora nem sempre esclarecida. Mas isso não faz esquecer o essencial, sendo este o abandono da maior parte das memórias históricas populares, aquelas em que o passado não servia à legitimação da ditadura.
No campo dos museus, então, o desinteresse tinha suporte ideológico profundo. António de Oliveira Salazar, quando quintanista de Direito em Coimbra, referia-se-lhes nestes termos: “Um museu é uma coisa morta; lembra uma casa mortuária. Está ali sepultado o tempo, e só por intenso esforço do nosso espírito conseguimos sentir que, por sobre a necrópole da arte, paira a alma sublime do artista. Há muita gente que fala em museus, e berra, e gesticula, e entusiasma-se, e ficaria bem surpresa, se lhe perguntássemos que beneficio ao seu espírito adveio da contemplação das coisas d’arte, que não têm alma ali, onde as puseram” (carta no Imparcial, escrita no contexto da criação do Museu Machado de Castro, com a desamortização do Paço Episcopal e a dessacralização da Igreja de São João de Almedina, ambos acentuadamente........