Era uma vez uma casinha no interior e ninguém abriu a porta |
Recuemos ao início de 2024. A partir daí, tornou-se legal comprar e vender imóveis sem apresentação obrigatória da licença de utilização ou da ficha técnica da habitação. A medida, integrada no pacote Simplex Urbanístico dos licenciamentos, prometia desbloquear o mercado e trazer à superfície milhares de casas esquecidas, muitas delas espalhadas por aldeias onde o tempo se mede mais pela erosão das paredes do que pelo calendário.
Pequenas casas, algumas com potencial, outras à beira da ruína, quase todas sem licença de habitabilidade. Ao mesmo tempo, a lei retirou aos bancos a imposição de exigir essa documentação antes de conceder crédito. À primeira vista, parecia uma lufada de ar fresco. Na prática, tornou-se mais um daqueles anúncios que soam bem em Lisboa e perdem força à medida que nos afastamos do litoral.
Quem vive no interior conhece o cenário: quintinhas abandonadas, casas de pedra com histórias por contar, portas fechadas há décadas. Também conhece o entusiasmo de quem decide ficar ou regressar. E conhece, sobretudo, o embate inevitável com a realidade. O Simplex simplificou no papel, mas não alterou a prática........