Crónica de um país mal aquecido

Há um frio que não vem nas previsões meteorológicas, principalmente quando se debitam as temperaturas, sem as sensações térmicas que denunciam que viver em Lisboa não é o mesmo que viver em Celorico da Beira. O frio entra pelas frinchas das janelas antigas, instala-se nos corredores compridos, sobe do soalho húmido e fica a escorrer nos mosaicos e azulejos. Não há madeiras nem soalho flutuante. Alguns tapetes de farrapos tentam trazer a ideia de calor à casa. E para os que podem há um ventilador comprado no Lidl, tão barato quão dispendioso na hora de pagar a luz.

É, pois, nesta altura do ano que o orçamento das famílias mais se ressente. A fatura da eletricidade aproxima-se dos 200 euros, empurrada por escalfetas e outros equipamentos que fazem o contador correr à velocidade da aflição. Casas mal-acondicionadas, sem isolamento térmico, sem aquecimento central, norma silenciosa em vastas zonas do país, sobretudo no interior. Para muitos idosos, a braseira e o cobertor elétrico continuam a ser companhia e um risco. A lareira em muitas casas está apagada, porque um trator de lenha ultrapassa os 300 euros; e a idade já não permite ir ao mato, no verão, garantir o inverno.

Quem conhece estas casas geladas a fundo são os enfermeiros e as enfermeiras do apoio domiciliário e os profissionais da assistência........

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