“Miúdas, não levem minissaias para os exames!”
O recado, a prevenção, o aviso piedoso é dirigido a elas e tem-me sido confidenciado por várias alunas acabadas de chegar ao ensino superior, quando, nas primeiras aulas de Jornalismo, falo da importância da liberdade, onde se inclui a de vestir o que quisermos. Sou imediatamente interrompida. “Não é bem assim, professora! Olhe que na minha escola, no secundário, na altura dos exames, fomos aconselhadas a não levar decotes nem saias.” Como assim? “‘Não podes entrar com esse decote’ e eu fui ao cacifo buscar a T-shirt de um amigo.”
Questionei se a situação correspondia a colégios privados e, na maioria dos relatos, sim, mas nem todos. Também há escolas secundárias públicas onde direções entenderam advertir as meninas para a forma como deveriam apresentar-se na época de exames. Não pude deixar de sentir curiosidade em perceber se haveria alguma recomendação equivalente para os rapazes. A resposta foi negativa.
Entendam-me, não quero aqui confundir liberdade com falta de noção sobre o espaço em que nos encontramos, nem transformar a sala de aula numa Bershka, porque não é disso que se trata. A escola deve ensinar contexto, adequação, pensamento crítico, respeito pelo outro e pela outra, mas daí a converter uma opção questionável de vestir numa espécie de lei interna, já vai um grande passo de Salazar. E que raio, como já escrevi, as mulheres efetivamente não têm um minuto de paz, principalmente quando são jovens, rebeldes e gostam de mostrar a pele. A pele, essa fronteira antiga onde tanta gente ainda acha ter direito de alfândega e onde o mamilo feminino ainda gera ataques de fúria se........
