Um lembrete às mulheres sobre autonomia no consultório médico |
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No Dia Internacional da Mulher, costuma-se falar sobre violência nas ruas, no trabalho ou dentro de casa. Mas pouco se fala sobre um espaço que deveria ser sinônimo de cuidado: o consultório médico.
A relação entre paciente e profissional de saúde é construída sobre confiança. Mas também envolve uma assimetria clara de poder. O médico possui conhecimento técnico, autoridade institucional e acesso ao corpo do paciente. Na imensa maioria das vezes, essa relação é conduzida com ética e respeito. Ainda assim, reconhecer essa assimetria é importante, porque ela pode gerar situações de vulnerabilidade.
Pesquisas internacionais indicam que entre 2% e 5% das mulheres relatam já ter vivido algum tipo de comportamento sexualmente inadequado por profissionais de saúde ao longo da vida. Um estudo realizado em Portugal encontrou números ainda mais altos, com cerca de 9% das pessoas afirmando ter sofrido algum tipo de violência sexual por um profissional de saúde. Especialistas consideram que esses números provavelmente subestimam a realidade, já que a subnotificação nesses casos é comum.
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Na ginecologia e na obstetrícia, essa discussão ganha uma dimensão particular. Exames íntimos fazem parte da prática clínica e exigem um nível de exposição física que não ocorre em muitas outras áreas da medicina. Justamente por isso, existem princípios claros sobre como esses exames devem ser conduzidos.
O primeiro é a explicação prévia. Antes de qualquer exame, a paciente deve saber o que será feito e o porquê. O segundo é o consentimento. O exame não começa simplesmente porque a paciente entrou no consultório, mas quando ela concorda com o procedimento. O terceiro é a preservação da dignidade, o que inclui oferecer avental ou lençol, limitar a exposição do corpo ao mínimo necessário.
Também é considerado boa prática que exames íntimos realizados por médicos homens contem com a presença de uma auxiliar ou enfermeira na sala. Em muitos serviços isso já é rotina. Não porque exista uma presunção de má conduta, mas porque essa presença protege tanto a paciente quanto o profissional.
Outro ponto importante envolve o papel das instituições. Hospitais e clínicas são responsáveis não apenas pela qualidade técnica do atendimento, mas também pela cultura profissional que promovem. Hoje, plataformas online registram relatos de pacientes sobre experiências negativas em consultas médicas.
Em Portugal, por exemplo, não é raro encontrar comentários em portais públicos de reclamação descrevendo situações desconfortáveis em consultas ginecológicas. Em alguns casos, essas queixas permanecem sem resposta das instituições envolvidas.
Responder, investigar e esclarecer são atitudes que fortalecem a confiança. Afinal, nada deveria acontecer em um consultório sem explicação, sem consentimento e sem respeito à dignidade da paciente. Também é importante que as mulheres se sintam encorajadas a registrar ocorrências quando algo parecer inadequado, utilizando canais institucionais como ouvidorias hospitalares ou portais públicos de reclamação.
Esses relatos não servem apenas para resolver um episódio individual. Eles ajudam a construir uma cultura de transparência e responsabilidade, além de proteger outras pacientes para que situações semelhantes não se repitam. Mudanças de cultura começam muitas vezes assim, quando experiências deixam de ser silenciadas e passam a ser levadas a sério.