O Mundial da exaustão proíbe a exaustão (e Martínez terá de usar os suplentes)
O Mundial 2026 quer combater o antijogo. Ou, na versão de quem talvez tenha lido e ouvido demasiado Gianni Infantino: o campeonato do Mundo mais ganancioso de sempre quer drenar todos os segundinhos possíveis dos seus 104 intermináveis jogos. E ainda ameaça castigar quem, com a bola a rolar, se estenda ao comprido sem a intervenção de uma arma de fogo. Talvez seja a gota de água que obrigará, finalmente, a selecção portuguesa a surpreender numa grande fase final. Usando os jogadores suplentes, por exemplo.
O Mundial da exaustão proíbe a exaustão. Não há como negar o brilhantismo da ideia, se pensarmos que o planeta do futebol inteiro vem consumindo legiões de neurónios com o puzzle do calendário internacional atafulhado. A ninguém passou pela cabeça usar as vantagens do autoritarismo tão na moda para erradicar o problema pela via dos regulamentos. Porquê parar aqui? Por que não vetar as lesões musculares? Interditar as roturas de ligamentos?
Exagero para fins literários, claro, mas não tanto como isso. Passou menos de um ano desde o campeonato do Mundo de clubes que, ajudado pela ampliação da Liga dos Campeões europeus, bateu recordes de desgaste e fez, comprovadamente, muitas equipas e jogadores pagar a factura durante esta época. O Mundial 2026 terá pela primeira vez 48 selecções, o que significa ainda mais 90 minutos para cada uma delas. Não será simpático, nem inocente, escolher este momento para concentrar os primeiros esforços objectivos da FIFA, desde 1992, para aumentar o tempo útil de jogo.
A selecção portuguesa acolhe sempre alguns dos futebolistas mais exaustos do planeta. Em 2025, lá estiveram “só” Vitinha, João Neves, Bruno Fernandes e Bernardo Silva no top-20. O Mundial das Américas será o primeiro em regime non stop. Demasiados dos melhores jogadores dos campeonatos europeus vão acabar ali uma época começada em Julho de 2024. Dezenas deles vão jogar a terceira fase final seguida (com Euro’24 e Mundial de Clubes). Por muito que as articulações lhes implorem, terão de resistir à tentação de um pequeno intervalo rebolando na relva fresca (uma competição em que Portugal seria, de facto, favorito a campeão do mundo). Também só lhes serão permitidos cinco segundos nos lançamentos e pontapés de baliza. Porque é intolerável que ao novo público milionário dos mundiais (acompanhar uma selecção nos estádio terá custos na casa das dezenas de milhar de euros) seja servido o pão e água que alimenta os adeptos da cota mensal e do bilhete a 30 euros.
Apesar de ter a ganância e o interesse próprio da FIFA como verdadeiros motivos, atacar o antijogo é sempre bom. Enfiar, escandalosamente, os dedos na ferida do desgaste talvez seja bom também, porque forçará a entrada definitiva na mais do que anunciada idade do bronze do futebol mundial: a era dos suplentes. Só a relutância natural em abandonar a lógica de um século de história do jogo têm vindo a alimentar alguma resistência à pressão do calendário e, acima de tudo, do insaciável e todo-poderoso mercado de transferências. Mas até Roberto Martínez será confrontado pela realidade que não pareceu reconhecer nestes dois jogos da Selecção Nacional com México e Estados Unidos. O tempo dos “núcleos duros”, das vacas sagradas e dos intocáveis acabou-se.
