O futuro é brilhante |
Antes, uma pessoa acordava e era, com sorte, ela própria. Hoje acorda e tem logo três tarefas: ser melhor do que ontem, aproximar-se da sua melhor versão e, já agora, documentar todo o processo e partilhar. Tudo isto antes de um pequeno-almoço que deixou de o ser e passou a rotina matinal. Este admirável novo cansaço de quem está permanentemente a tentar tornar-se melhor, mas não melhor no sentido moral, que isso já não é trend. Melhor no sentido estético, produtivo, funcional, hidratado, equilibrado, resiliente, tonificado, com bom jaw line e, se possível, com alguns likes à mistura.
Procuramos estar sempre a melhorar, como se nunca estivéssemos bem acabados. Somos uma espécie de versão provisória de nós próprios. Agora, além de sermos produtivos, também temos de ser gratos. E, se possível, acordar às cinco da manhã para agradecer antes que o dia estrague tudo.
Há qualquer coisa de profundamente cómico em alguém que não consegue descansar porque está ocupado a tentar descansar melhor. Já não nos basta dormir, temos de optimizar o sono. Já não basta existir, é preciso justificar a nossa existência com métricas absurdas.
O glow up, que antes era uma coisa bonita que acontecia às escondidas, tornou-se uma obrigação pública. Uma espécie de concurso permanente em que todos participam e que o prémio é simplesmente continuar a participar.
O mais curioso é que esta obsessão pela melhoria contínua raramente inclui melhorar aquilo que é, de facto, difícil: ser mais paciente, mais generoso, menos idiota. Não. Melhoramos o que é mensurável, fotografável, partilhável. O resto fica para a próxima versão que ainda há-de sair.
Não podemos esquecer o medo profundo de desperdiçar tempo. Ver um filme sem aprender nada com ele? Perigoso. Estar duas horas sem produzir? Trágico. Fazer algo só porque nos apetece? Francamente irresponsável. A vida deixou de ser vivida para passar a ser gerida.
Talvez hoje, o verdadeiro luxo seja piorar um bocadinho e abdicar da constante vigilância sobre nós próprios. Permitir-se uma imperfeição sem um plano de emergência. Comer qualquer coisa sem consultar três vídeos. Ficar parado no mesmo sítio sem chamar a isso mindfulness.
Quem sabe o verdadeiro glow up seja, paradoxalmente, deixar de brilhar tanto. Ou pelo menos deixar de tentar. Porque há uma dignidade enorme em ser apenas suficiente.
No fundo, o problema não é querermos melhorar. É não sabermos parar de tentar. Como se a vida fosse um mecanismo que só funciona em subida e qualquer pausa fosse uma forma de queda. Parar não é morrer.
Digo tudo isto sem grande autoridade. Sou especialista em começar de novo à segunda-feira, com resultados consistentes até terça. Amanhã é que vai ser: acordo cedo, bebo água morna com limão, bebo o meu smoothie que tem mais boas intenções do que bom sabor, tento não pegar no telemóvel e acabo a pegar no telemóvel para ver como não pegar no telemóvel, alongo, faço yoga, medito cinco minutos, corro, leio dez páginas, tomo um cold shower porque alguém disse que é life changing, experimento uma rotina nova de skincare, e mudo de outfit quatro vezes antes de sair de casa, à procura de uma versão de mim próprio que ainda não existe.
E no fim do dia, com sorte, não melhorei grande coisa. E talvez haja algo de honesto aí. Ou pelo menos, de suficiente.