Avançam os retrocessos |
Os dados do mais recente Democracy Report 2026 do Instituto V-Dem confirmam um sinal de alarme: o nível de democracia sob o qual vive o cidadão médio global retrocedeu aos níveis de 1978, apagando efetivamente muitos dos avanços da "terceira vaga de democratização" iniciada com a nossa Revolução dos Cravos. Segundo os relatores do documento, vivemos hoje o auge de uma "Grande Reversão", em que uns esmagadores 74% da população mundial, cerca de seis mil milhões de pessoas, residem em regimes autocráticos, enquanto a parcela da humanidade que vive em democracias liberais definhou para uns escassos 7%.
Na Europa, o cenário é de uma vulnerabilidade sem precedentes, com a autocratização a afetar agora sete Estados-membros da União Europeia e dois dos seus principais aliados, o Reino Unido e os Estados Unidos. Na região da Europa Ocidental e América do Norte, a parcela da população a viver em democracias liberais desmoronou de 82% para uns escassos 42% num único ano, um tombo provocado não só pela queda dos EUA do seu estatuto histórico de democracia liberal, mas também pela deriva autoritária em países como a Itália e a Grécia. Este retrocesso democrático verifica-se também em Portugal, que, pela primeira vez, entra na "watchlist" de países em risco sério de autocratização.
Esta grande reversão apontada pelo relatório não é um fenómeno meteorológico, mas, sim, o resultado, entre outras variáveis, de um modelo económico que permite a acumulação obscena de riqueza. Como mostra o relatório da Oxfam de janeiro de 2026, já vivemos num regime que tem mais de oligarquia do que democracia, onde a extrema desigualdade económica se traduz inevitavelmente em desigualdade política. Quando 12 multimilionários detêm mais riqueza do que metade da humanidade, a democracia, o governo do povo, é substituída pela oligarquia, o governo dos super-ricos.
A revisão da literatura feita pela Oxfam confirma que países mais desiguais têm uma probabilidade sete vezes maior de sofrerem erosão democrática. Os dados da Oxfam mostram, por exemplo, que, nos Estados Unidos — o caso mais agudo de autocratização recente —, apenas 100 famílias de multimilionários foram responsáveis por um em cada seis dólares gastos em campanhas eleitorais nos EUA. Outras estimativas indicam que um multimilionário tem quatro mil vezes mais probabilidade de ocupar um cargo político do que um cidadão comum. Este ciclo vicioso da captura política é também evidente na esfera mediática, já que mais de metade das maiores empresas de media do mundo são propriedade de multimilionários.
A democracia, em Portugal e no mundo, encontra-se literalmente pelos arames, sustentada por instituições que perdem a sua base de apoio social à medida que se revelam incapazes de garantir a dignidade material da maioria. Esta crise de legitimação é a consequência direta de um modelo de desenvolvimento que, ao priorizar a financeirização e a acumulação sem precedentes de riqueza, rompeu o pacto social que fundamenta a democracia. Vivemos o paradoxo de uma era de abundância económica em que uma em cada quatro pessoas no mundo enfrenta insegurança alimentar e em que o custo de vida se tornou insuportável para o cidadão comum. O descrédito nas instituições nasce desta falência moral: quando os sistemas democráticos abdicam de proteger os direitos económicos e sociais, como o acesso à habitação, à alimentação e à saúde, para servirem de correia de transmissão dos interesses de uma oligarquia financeira, a própria democracia torna-se apenas de jure e não de facto.
Este simulacro de democracia assenta, portanto, numa oferta ilusória de alternativas, semeando promessas de crescimento eterno sob a bandeira da prosperidade (uma idade de ouro, nas palavras do Sr. Trump), enquanto, dia após dia, revela-se antes um futuro endividado, gerando ódio, pronto para ser colhido pelo oportunismo de extrema-direita e por uma tecnocracia santificada pela IA.
A lição que os dados de 2026 nos deixam é clara: a continuidade da democracia é indissociável da igualdade e da justiça económica
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A resposta do status quo da democracia liberal, mesmo aparentemente contra a erosão democrática, tem, ao contrário, agravado a situação. Ao insistir na capacidade de domar, cooperando, com as forças expansivas da oligarquia financeira – aquela capaz de manipular tanto quanto gerar ganhos astronómicos depois de apostar em futuros do preço do petróleo minutos antes de uma publicação de Trump sobre negociações com o Irão –, cimenta ainda mais a capacidade da última de corroer instituições democráticas, controlar processos eleitorais e escolher os seus intervenientes, sustentada em um único cenário sem escolha real.
Em Portugal, esta fragilidade do sistema manifesta-se no domínio de um circo político que, apesar de uma gesticulação de polarização, partilha uma visão do desenvolvimento económico assente na especulação imobiliária, no turismo de massa e na entrega de setores estratégicos ao capital transnacional. O descrédito nas instituições nasce precisamente desta perceção justificada de que o poder real é exercido em bastidores, capturado por uma pequena minoria, que aliena a participação popular.
A lição que os dados de 2026 nos deixam é clara: a continuidade da democracia é indissociável da igualdade e da justiça económica.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990