Viana do Castelo: Notas de um amanhecer |
Ainda é noite escura quando saio da Casa Melo Alvim, o mais antigo solar da cidade, edificado em 1509. Fica no topo da Avenida dos Combatentes da Grande Guerra e, depois de ter passado por uma cuidadosa renovação, é hoje um hotel de charme. Uma rajada de vento gélido insinua-se pela gola da camisola, denunciando o casaco aberto. O fecho a correr pelos dentes metálicos é o único som que se ouve.
Paro na esquina da avenida, junto aos Correios. “Olá, espero que esta carta te encontre bem de saúde, assim como todos os teus. Nós por cá andamos.” Ainda há quem escreva cartas? A pergunta faz-me recuar no tempo. Na adolescência, escrevi algumas: namoricos por correspondência. Um chiar de rodas afasta-me a recordação dos muitos corações desenhados em folhas de caderno às riscas. O som provém das rodas de um caixote do lixo que uma senhora puxa avenida acima. A memória das paixonetas resiste e sobe-me pelas narinas o aroma de algumas cartas perfumadas que recebi. O chiar parou. Ouve-se agora a vassoura a empurrar o lixo para uma pá de metal que raspa no chão. Silêncio breve. E as rodas voltam a chiar.
A senhora espanta-se ao ver-me sentado nas escadas dos Correios. “Bom dia! O passeio está um brinco.” “Bom dia! Eu não brinco”, graceja, enquanto me pede, com um gesto da vassoura, que saia dos degraus. Afasto-me. Não vi que houvesse algo para varrer ali e digo-lhe que é muito minuciosa. Responde-me que olha para as ruas como para a sua casa. “Mesmo que pareça limpa, limpo-a.”
A bilheteira cheira a café. Uma rapariga com uma mochila às costas, que a cobre da nuca quase à dobra dos joelhos, caminha devagar e, parece-me, com dificuldade, com um copo fumegante na mão. De frente para o televisor dos horários, sorve ruidosamente a bebida e tira do bolso uma sandes embrulhada num plástico barulhento. Embora não pareça muito apetitosa, relembra-me que estou em jejum. Uma outra jovem está sentada com o telemóvel encostado aos joelhos e a cara colada ao ecrã. Parece um bicho-de-conta enrolado. Aconselho-a a endireitar-se? O mais provável é que me diga que nada tenho a ver com isso.
“Ding dong: o comboio Intercidades com destino a Lisboa-Santa Apolónia chegará à linha número três dentro de dois minutos. Atenção à distância entre o comboio e a plataforma. Ding dong.” Na antecâmara da viagem, pessoas conversam — um desabafo mais alto de uma rapariga evoca uma intriga doméstica —, e ouvem-se os autocarros a aquecerem os motores no terminal rodoviário.
Ao fundo, onde o dia clareia, formas humanas esborratadas atravessam a ponte por cima da linha. Deve dar uma boa fotografia. Subo as escadas a correr, tentando não esbarrar em quem desce nem empurrar quem sobe. Entre as solas apressadas a martelar nos degraus metálicos, sobressai o apito aflito do ator principal a entrar na linha três. Acelero, subindo dois degraus de cada vez, como o fã número 1 que, por nada deste mundo, perderia a aparição em palco da celebridade. Chego a tempo de observar como o espaço de espera se torna espaço de ação com a aproximação do comboio: os passageiros mais experientes dirigem-se para a zona onde sabem ficar as portas da carruagem. Acompanhantes despedem-se e afastam-se. A fotografia faz-se. Aceno a quem desembarca. Ninguém me vê. Neste fluir, relembro a constatação de James Clifford: “Todos estão em movimento, e assim o é há séculos: o morar em viagem.”
O dia nasceu límpido. Na margem esquerda do rio Lima, por baixo da ponte Eiffel, observo o nevoeiro a aproximar-se, adensando-se rapidamente, prestes a engolir a comprida estrutura metálica. Diariamente, vemos milhões de coisas. A quantas prestamos atenção? O excesso de estímulos artificiais cobriu a nossa atenção com um nevoeiro de cansaço. Um nevoeiro tão denso quanto o que agora esbate os contornos da ponte e que transforma a nossa perceção do mundo. Fecho os olhos e afino os ouvidos. Cheira a rio. A que cheira um rio? Pergunto-me ao sentir no rosto a humidade da nuvem que tudo cobre. A cidade, já bem desperta, revela a sua dinâmica pelo som. Concentro-me no som envolvente, até que os motores e o atrito dos pneus no asfalto se diluem num murmúrio indistinto. Silêncio no meio do ruído.
O estrondo dispara o coração. Abro os olhos. O comboio atravessa a ponte como um relâmpago. O barulho fica a ecoar até longe, abafando todos os sons em redor. Já longe, ouve-se o mesmo apito urgente de antes, que anuncia nova subida ao palco. “Quando trabalhávamos ao pé do rio apanhávamos cada susto. Daqui vejo a ponte e o comboio, mas já não me assusto! Mas isto aqui em Viana é muito calmo. Poucas buzinas se ouvem. Eu detesto que me buzinem. Aquilo lá em Lisboa é uma sinfonia, não é?”, pergunta Vítor, um dos jardineiros de serviço ao jardim público de Viana, paralelo à Alameda 5 de Outubro. Digo que sim, ainda não refeito do estrondo. Pergunto o que estão a fazer. “Estamos a picar e a adubar os amores, a nossa plantação de inverno, é preciso ir cuidando deles…”, explica Joana, enquanto cava em redor das plantas. Mais adiante, na marina, enquanto o sol desponta no meio do nevoeiro, observo a coreografia de uma dúzia de pessoas que cuidam dos corpos no ginásio panorâmico.
A Road Trip Literária - Ler é o Melhor Caminho, que sucedeu à Road Trip Literária - 18 Distritos, 18 Bibliotecas, 18 Livros, para voltar a dar palco às bibliotecas e voz a quem nelas trabalha, promovendo a leitura, a cultura e o conhecimento, reinventou-se. Para além das bibliotecas e dos autores locais, a 4.ª edição inclui outros projectos e iniciativas que valorizam a identidade das regiões, as suas pessoas e modos de vida.
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990