Ninguém escolhe ter cancro, senhores deputados — sejam humanos! |
Estive doente cerca de três anos. Sempre que possível, interrompia as baixas médicas para trabalhar, o que, a nível burocrático, gerava confusão para a minha entidade patronal. Ou assim pensava eu. Como fazia ciclos de quimioterapia de cerca de oito dias, com internamento associado, e precisava de aproximadamente uma semana para recuperar, voltava a trabalhar na semana seguinte. Ou seja, 15 dias de baixa, uma semana a trabalhar. Este ciclo repetiu-se diversas vezes, pois, no total — entre o cancro original e duas recidivas —, realizei 13 ciclos de quimioterapia. São muitos dias. Muitas ausências do trabalho. E também muitas baixas interrompidas.
E interrompia a baixa porquê, se estava doente?
Porque quem lida com uma doença (cancro ou outra) que o impossibilita de trabalhar, sobretudo por períodos prolongados, como sucede habitualmente no caso do cancro, acaba, mais tarde ou mais cedo, por sentir-se inútil, incapaz, sem qualquer valia, que é um doente profissional, que tem o rendimento diminuído, não contribui para o orçamento familiar e é dependente.
Estou à vontade para falar sobre o tema, porque senti tudo isso por mais do que uma vez e também porque interrompi sempre as baixas médicas, ou seja, não aceitei a condição de subsidiado a 100%. Mas não julgo quem o faça. Primeiro porque não tenho nada a ver com isso, depois porque não conhecemos a vida dos outros, as suas circunstâncias, o que sentem de forma mais profunda. E, por fim, porque há quem não tenha mesmo essa escolha, simplesmente porque física ou psicologicamente, ou por ambas as razões, é incapaz de o fazer.
Nota importante: ninguém que tenha cancro é subsidiado a 100% pelo Estado. E essa situação assim continuará, pois o nosso Parlamento rejeitou a proposta para garantir subsídio de doença a 100% a doentes com cancro. Votos contra de CDS e PSD, abstenção do PS.
Levantem-se agora as vossas vozes, opinadores profissionais deste país, como fazem com as mais irrelevantes questões com que gastam horas de debate nas televisões e parágrafos a fio nos jornais.
Retomando a questão que também gostaria de ver debatida a sério, voltemos ao início do texto.
Um dia, interrompendo a baixa para ir trabalhar depois de ter sido submetido a uma intervenção cirúrgica importante que me obrigou a um maior período de recuperação, estava na minha secretária quando recebi um telefonema do departamento de pessoal.
Vou resumir. “A administração não se sente confortável com o João aqui na empresa, tem receio que lhe aconteça alguma coisa e prefere que vá para casa.”
Fiquei sem saber o que dizer. Mas ainda referi que tinha alta por parte do diretor de oncologia do IPO. Referi-o, mas já me sentia tão indignado que abandonei o local de trabalho para me dirigir ao IPO e pedir uma declaração formal ao médico que me havia dado alta. O clínico indignou-se tanto como eu e simplesmente me disse que voltasse ao trabalho, porque me dera alta e ninguém me podia mandar embora por recear que me acontecesse alguma coisa.
No dia seguinte, apresentei-me no trabalho e contei o sucedido ao responsável do departamento de pessoal, que, em vez de pôr fim ao ato discriminatório, ligou ao advogado, apresentando-lhe a situação. Com o telefone em alta voz, o advogado pediu que não voltassem a cometer o erro de me mandarem embora.
Caros deputados, doença não é escolha. Uma doença prolongada como o cancro afeta uma pessoa a vários níveis. Um deles é o financeiro. Sejam humanos.
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990