Loulé: Uma biografia sensorial |
O cão repara na minha presença, espeta as orelhas e olha-me com interesse, esticando ligeiramente a trela. A senhora alta que o segura interrompe a conversa com outra senhora igualmente alta e roda a cabeça à procura do motivo da súbita inquietação do animal. Ao ver-me de máquina fotográfica na mão, sorri. «Pode fotografar à vontade», diz, vaidosa do canídeo, num português claro, mas com um sotaque centro-europeu, talvez holandês. Agradeço, e digo-lhe que não estou interessado em fotografar o cão, que agora me rosna. Amarelado o sorriso, a senhora retoma a conversa. Resguardado da chuva miudinha debaixo de uma varanda estreita, aguardo que o trio se afaste para poder fotografar a estátua do poeta António Aleixo, sentado na esplanada. Por sorte, e certamente por compromisso, um funcionário da câmara aproxima-se com o soprador de folhas. O cão assusta-se e rosna e ladra, furibundo, inviabilizando a conversa das senhoras, que segundos depois se despedem com um abraço.
— Ainda bem que se foram. Já não as podia ouvir. E o cão a ladrar então… Antes o soprador —, desabafa o poeta, molhado da cabeça aos pés.
— Devia sair da chuva. Já está com o pingo no nariz, vai constipar-se —, aconselho.
Do seu silêncio repentino concluo que tinha pouca (nenhuma) vontade de conversar. Resguardo-me no Calcinha, onde ocupo uma mesa no centro da sala. No ar, um aconchegante aroma a café acabado de moer. A decoração do espaço é uma viagem no tempo: mesas de tampo de mármore e pés de........