O milagre da multiplicação dos ensaios clínicos em PowerPoint
Há uma nova e fascinante ciência em Portugal merecedora de prémios internacionais, a Ciência da Promoção Abstrata. Trata-se de uma disciplina revolucionária em que consórcios público-privados, agências governamentais de nome pomposo e consultoras nacionais e multinacionais unem-se para “posicionar o país na vanguarda”, sem que se perceba o que foi feito. Quantos ensaios clínicos académicos multicêntricos foram realmente desbloqueados? Quantos contratos hospitalares ficaram mais rápidos? Quantos doentes foram recrutados por causa destas estruturas? Quantos centros ganharam equipas estáveis? Quantos prazos de autorização, contratação, orçamento e recrutamento foram reduzidos? Sem estes números, o ecossistema torna-se o palco perfeito para uma comédia de enganos.
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De um lado, temos agências estatais cuja missão é “dinamizar e agilizar”. Na prática, emitem comunicados em jargão corporativo, que fariam inveja a um poeta surrealista. Do outro, consultoras tecnológicas e de dados contratadas a peso de ouro, muitas vezes patrocinadas pelas mesmas agências ou pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), para digitalizar o que quer que apareça à frente. É divertido assistir aos eventos preparados pelos dois lados, puras demonstrações de “lambebotismo” nacional.
A promessa é irresistível, vamos desburocratizar os ensaios clínicos, atrair investimento milionário e colocar o doente no centro do ecossistema. Presume-se que o doente esteja no centro para assistir, na primeira fila, ao espetáculo de ilusionismo. O resultado é uma quantidade industrial de fumo digital e uma maquilhagem estatística digna de um Óscar de efeitos visuais.
Se perguntarmos a laboratórios, médicos e doentes o que mudou na realidade prática de iniciar um ensaio clínico num hospital........
