Avós com ciúmes dos netos

Esta carta não precisa de resposta. É um desabafo, mas que me atrevo a imaginar que é o desabafo que muitas avós não têm coragem de fazer, por medo de magoar os filhos e parecerem umas bruxas más. Mas ponho o chapéu preto em bico, compro uma vassoura e um gato — já o caldeirão atrai-me menos porque me lembra a cozinha! — e digo-te abertamente: tenho ciúmes dos meus netos. Dos teus filhos, portanto. Não percebo, sinceramente, porque é que tendo eu aparecido primeiro na tua vida, são eles que têm direito à tua companhia todos os dias, porque é que os vais buscar e levar à escola, brincas com eles e, cereja no topo do bolo, lhes lês histórias para adormecerem. Idem aspas para os teus irmãos. Decididamente não faz qualquer sentido.

Já me estou a rir da minha própria queixa, porque na verdade não tenho saudades nenhumas de ter a casa perpetuamente cheia de adolescentes, com as hormonas e o humor aos saltos, mas sabe-me sempre bem a vossa companhia de adultos. O que é que querem, saíram queridos e interessantes, com sentido de humor e apetecia-me ir convosco ao cinema, e às compras, jantar fora e conversar, pedir-vos opinião sobre mil coisas. Sem crianças à volta.

Aceito que, muitas vezes, somos nós, os avós, que não sabemos pedir a vossa companhia, e nos remetemos para as bocas ou as insinuações mesquinhas, numa confusão de mensagens que só servem para criar mal-entendidos. Por isso, aproveito as nossas queridas Birras, para te perguntar — queres ir almoçar comigo?

Acho que está na altura de revelar que também temos muitas saudades vossas. Eu sei que parece que os nossos filhos se tornaram a luz dos nossos olhos e não temos espaço para mais nada, nem ninguém (e é verdade que isso aconteceu quando eram pequeninos e tinham... como é que se diz... menos personalidade), mas agora não é essa a questão.

A verdade é que somos reféns! Não recebeu nenhuma carta de resgate? Provavelmente pensaram que não valia a pena enviá-la, porque ninguém daria muito por nós. Pelo menos não o suficiente para compensar o preço dos ubers que teriam de contratar para nos substituir, ou tomaram consciência de que os jantares não se fazem sozinhos, e a roupa não aparece lavada, a não ser que estejamos lá!

Por favor, peça aos meus raptores se posso almoçar consigo! Mas, espere, talvez seja melhor deixar-lhes uma oferenda para que aceitem deixar a mãe sair em liberdade condicional. Costuma funcionar oferecer-lhes a companhia dos avós, daí que sejam tantas vezes sacrificados, mas desta vez talvez a mãe possa convocar a tia adorada cá para casa, enquanto nos escapamos. Aguardo ansiosamente...

O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. E, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. As autoras escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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