A brincar descobrimos a nossa personalidade (e não só)

Querida Ana,

Escrevo-te nestes primeiros dias do ano para te assegurar que sobrevivi às festas, mas que se me vires na rua talvez não me reconheças porque graças ao talento para cabeleireira da tua filha Marta e de uma amiga, tenho agora o cabelo com madeixas cor-de-rosa e cor de laranja! Não te digo que os netos rejuvenescem os avós?

Mas deixo-te uma outra reflexão profunda — quando hoje estava a arrumar os meus brinquedos, com que me entretive com os mais pequeninos, tomei consciência de que para muitos adultos “por as coisas em ordem” pode ser o único pretexto que têm para brincar. Conversei imenso com a Princesa Ervilha enquanto lhe refazia a cama de sete colchões, brinquei com o urso cozinheiro, que vive obcecado com a limpeza das suas panelas, embalei os ratinhos antes de os aconchegar de novo na caixa de fósforos, agradeci à senhora-coelha-enfermeira o tratamento que deu aos bebés coelhinhos e estive a preparar a tenda de campanha para uma aventura dos ouriços adolescentes — e foi tão bom, tão repousante.

Talvez para muitos adultos os telemóveis sejam o único recreio possível, em que escondidos sob uma capa de “trabalho” podem deixar........

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