A falsa meritocracia do ensino português |
Chegando ao ensino superior por via da escola pública, sem acesso a uma grande panóplia de recursos e explicações, através da sorte em acertar escolhas múltiplas suficientes nos exames nacionais, misturada com a boa vontade dos professores (precarizados) que me ensinaram, fui confrontado com a realidade das discrepâncias socioeconómicas que me rodeavam, intrínseca de contradições.
Estudando em Lisboa, num curso onde as médias de entrada são elevadas, tornou-se aparente que a maioria do tecido social onde agora me inseria vivia numa realidade totalmente díspar da minha, o que, dialecticamente, provocou uma inclusão exclusiva nos círculos sociais dentro da faculdade. Ou seja, os temas de conversa são tão distantes da realidade em que cresci, com um património cultural suficientemente sofisticado ao qual nunca tive acesso, que fui obrigado a adaptar-me e a manter-me em silêncio, não por timidez, mas porque realmente não tinha nada a acrescentar. Fui obrigado a adaptar-me e a obter artificialmente algo que aos meus colegas lhes foi incutido naturalmente, para estar incluído onde me sinto inequivocamente excluído.
Sendo então agora um estudante universitário, nestas condições anteriormente mencionadas, após a euforia das primeiras semanas de Setembro, carregadas de festas universitárias, novos alunos e muitos ataques inapropriados aos nossos rins e fígado, acompanhados, por norma, de noites esquecidas, recontadas por quem de nós, em sofrimento, nos cuidou, somos encarados com dois semestres e mais uma contradição desta experiência: a falta de formação pedagógica da classe docente universitária. Focamo-nos activamente em ultrapassar o desespero provocado por essa mesma lacuna: na sua maioria, investigadores que também são professores, que nos facultam uma quantidade absurda e desproporcionada de textos e matérias, na sua maioria ausentes de propósito e de devida exploração em contexto de aula, que nos são exigidas ler e, essencialmente, decorar para, num exame, podermos passar não só à própria unidade curricular, mas também aos nossos anseios, inseguranças e comparações em relação às nossas capacidades e, consequentemente, à viabilidade do nosso futuro.
É necessário entender, assim, que a "meritocracia" é um conceito absurdo e distante da realidade do sistema educativo português. Quem tem sucesso, na sua maioria, é quem já nasce com ele, quem tem acesso, desde logo, aos melhores estabelecimentos de ensino, do primário ao secundário, onde o aluno não tem de se preocupar com a sua segurança no caminho para a escola, nem com a falta de professor para uma determinada disciplina, nem com o excesso de colegas dentro da sua turma, que impossibilita a devida aprendizagem dos conteúdos necessários para alcançar um bom desempenho em provas de ingresso que são, supostamente, de igual oportunidade para todos, mas mais iguais para uns do que para outros.
Conclui-se, assim, que é necessário deixarmos de encarar o sistema educativo português, nos seus moldes actuais, como tendo as condições para garantir a igualdade de oportunidades e a "meritocracia"; que, nos exames nacionais, apesar de iguais para todos, cada aluno possui uma preparação diferente, extremamente condicionada pela lotaria genética e geográfica, sobre a qual não tem controlo; e que o ensino superior carece de docentes com a preparação pedagógica necessária para desenvolver a especialização dos jovens portugueses.
O ensino público necessita de reformas e de financiamento que permitam encurtar as distâncias entre os filhos de operários e os filhos de engenheiros, fazendo conviver pessoas de todas as condições socioeconómicas no meio académico, em vez da segregação assistida, onde os alunos "ricos" permanecem no ensino privado até ao secundário e conquistam o seu lugar na universidade pública, em detrimento dos alunos da escola pública, que são obrigados, em grande parte, a endividar-se em universidades privadas para prosseguirem os seus sonhos, que se tornam longínquos por factores sobre os quais não têm controlo.