Quem controla os chokepoints no século XXI, como o estreito de Bab el-Mandeb?

Nos últimos meses, o estreito de Bab el-Mandeb voltou ao centro da atenção internacional. Esta mediatização é resultante de uma sucessão de ataques conduzidos por atores não estatais, como os houthis no Iémen e não por uma guerra declarada entre Estados. Estas ações levadas a cabo pelo proxy do Irão são capazes de perturbar uma das mais vitais rotas do comércio global. Navios desviados, custos logísticos a subir e cadeias de abastecimento sob pressão expõem uma realidade desconfortável: o controlo de um chokepoint estratégico já não depende exclusivamente de presença naval ou soberania territorial. Hoje, o poder manifesta-se de forma mais difusa e, por isso mesmo, mais difícil de conter.

Durante grande parte do século XX, o controlo de chokepoints foi pensado à luz de uma lógica eminentemente territorial e naval, ancorada na centralidade do domínio físico dos espaços estratégicos. A tradição geopolítica, representada por autores como Nicholas Spykman, sublinhava a importância do posicionamento geográfico e da ocupação de zonas críticas, enquanto a teoria do poder marítimo clássico, associada a Alfred Thayer Mahan, enfatizava a supremacia naval como condição para garantir o controlo das rotas comerciais. Em conjunto, estas perspetivas consolidaram a ideia de que controlar um espaço estratégico implicava, em última instância, estar fisicamente presente e ser capaz de projetar força de forma contínua.

O que se observa hoje no Mar Vermelho não é a substituição desse modelo, mas a sua erosão progressiva. Atores não estatais, frequentemente apoiados de forma indireta por Estados, conseguem projetar poder de forma assimétrica, explorando vulnerabilidades estruturais do sistema marítimo global. Drones e mísseis de baixo custo, sendo tecnologias relativamente acessíveis, permitem interferir com fluxos comerciais sem necessidade de superioridade naval convencional. Neste contexto, o controlo deixa de ser sinónimo de domínio permanente e passa a depender da capacidade de interdição seletiva.

É neste enquadramento que se torna útil pensar em termos de controlo híbrido geoestratégico. Este não assenta na ocupação territorial nem na supremacia militar direta, mas na combinação de meios indiretos, atores intermediários e instrumentos tecnológicos que permitem exercer influência funcional sobre um espaço estratégico. Desta forma, exercer controlo passa pela capacidade de condicionar e não apenas de possuir. Assim esta capacidade passa por afetar, de forma credível e recorrente, o funcionamento de um chokepoint sem o dominar formalmente.

As implicações desta transformação são profundas. Por um lado, reduzem a eficácia dos instrumentos clássicos de poder, tornando mais difícil para as grandes potências garantir a segurança de rotas marítimas críticas. Por outro, ampliam o número de atores capazes de influenciar o sistema internacional, mesmo sem dispor de recursos convencionais equivalentes. O resultado é um ambiente estratégico mais fragmentado, mais imprevisível e estruturalmente mais vulnerável a perturbações localizadas com efeitos globais.

Se o século XX foi marcado pela disputa pelo controlo físico dos espaços estratégicos, o século XXI parece ser definido pela capacidade de os desestabilizar sem os ocupar. No caso dos chokepoints marítimos, isso significa que o poder já não reside apenas em quem está presente, mas em quem consegue, no momento certo, interromper o fluxo. E essa é uma forma de controlo que as teorias clássicas dificilmente anteciparam, mas que a realidade contemporânea já tornou incontornável.


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