Todas por um: o ritual coletivo da defesa e o silenciamento das vítimas

Sempre que uma mulher denuncia publicamente assédio sexual por parte de uma figura pública masculina, assistimos a um ritual quase coreografado: surge, invariavelmente, uma carta coletiva assinada por dezenas de mulheres que lidaram, de alguma forma, com o acusado, atestando o seu carácter exemplar e profissionalismo irrepreensível. O padrão repete-se com uma precisão que deixou há muito de ser coincidência para se tornar um fenómeno sociológico digno de análise aprofundada.

O caso recente envolvendo um candidato presidencial em Portugal não é exceção. Trinta mulheres apressaram-se a declarar publicamente que “nunca vivenciaram ou presenciaram comportamentos inadequados”, num testemunho coletivo que surge como contranarrativa à denúncia de uma ex-assessora. Esta análise não pretende julgar a veracidade de nenhuma das versões – essa é uma questão para os tribunais. O que aqui se propõe é uma reflexão crítica sobre o padrão em si, sobre o que estas cartas representam e, sobretudo, sobre o impacto que têm na perpetuação de dinâmicas de poder que sustentam a cultura do assédio.

Existe uma lógica implícita nestas cartas coletivas que merece ser desconstruída: a ideia de que 30 testemunhos de não-assédio teriam mais peso do que um testemunho de assédio. Esta é uma falácia que assenta numa incompreensão fundamental sobre a natureza do assédio sexual. O assédio não é um comportamento universal que o perpetrador exerce indiscriminadamente com todas as mulheres. É, pelo contrário, um exercício seletivo de poder, frequentemente direcionado a vítimas específicas que o agressor identifica como vulneráveis, isoladas ou menos propensas a serem acreditadas. Um homem pode ser um colega exemplar com noventa e nove mulheres e um predador com uma. As duas realidades não são........

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