Os rostos do sistema

O que tornou as declarações de Cristina Ferreira sobre a violação de uma adolescente de 16 anos mais devastadoras do que qualquer comentário equivalente não foi o conteúdo. Foi quem o disse. Esta mulher a dizer, em direto, para centenas de milhares de pessoas, que a "adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga" pode impedir um agressor de ouvir um "para" tem uma eficácia que nenhum outro conseguiria igualar.

Cristina Ferreira não é apenas uma apresentadora com opiniões problemáticas sobre violência sexual. É uma figura que ocupa, na cultura portuguesa contemporânea, um lugar muito específico e muito útil: o da mulher que chegou longe, vinda do zero. A narrativa que ela corporiza, e que alimenta meticulosamente em cada entrevista e em cada decisão empresarial tornada pública, é a de que o sucesso é uma questão de vontade, que os obstáculos existem para ser superados, e que quem não os supera é porque não o quis suficientemente. Esta narrativa tem uma função política precisa: serve de argumento contra todas as mulheres que dizem que o sistema as prejudica. Se ela conseguiu, o sistema funciona. E, se o sistema funciona, o que resta quando uma mulher se queixa é a dúvida. Sempre sobre ela.

Não é uma linha reta, mas é uma linha. E, quando Cristina Ferreira relativiza o consentimento sexual em direto, não está apenas a expressar um preconceito. Está a ativar toda a autoridade simbólica que acumulou como mulher que "percebe da vida" para validar a dúvida que o sistema sempre quis que existisse sobre as vítimas. É por isso que as suas declarações não são apenas mais uma polémica num ciclo interminável de polémicas: são uma peça de um mecanismo muito mais antigo e muito mais sofisticado do que o programa onde foram proferidas. O consentimento não é um ato individual que acontece num vácuo: é uma estrutura social que depende inteiramente das condições de poder em que ocorre. Quando essas condições são ignoradas, o ónus........

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