Diogo Ramada Curto e as heranças preciosas

Faltam-me condições para avaliar a obra escrita que Diogo Ramada Curto deixa enquanto historiador. Esse gesto caberá a outros, talvez até caiba mais a leitores de gerações que vieram já bem depois da minha, que, mais ano menos ano, é a do próprio historiador. E em qualquer caso não sou historiador, o meu contacto com a História, enquanto ofício (como o Diogo gostava de dizer), é muito lateral, muito de leitor sem responsabilidades nem plano, mais ou menos ao sabor de interesses ocasionais, de curiosidades relativamente constantes ou de necessidades de trabalho que precisavam de suporte competente.

Mas Diogo Ramada Curto também foi meu professor, há muitos anos. Foi um dos professores que conheci ao frequentar o 1.º ano de licenciatura, há mais de quatro décadas. Tinha a cargo dele uma turma anual de História das Ideias, frequentada por pessoas inscritas em cursos diversos. E foi um professor (assistente estagiário, suponho) muito marcante. Ficou a representar, para mim, o ponto de vista da História, por oposição ao da Literatura porque ele, de certa maneira, gostava de marcar, em frente a alunos de Literatura, a diferença que nos separava da perspetiva histórica, cultivando uma polémica incisiva mas cordial. Dentro da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa daquela época, pelo menos, esta diferença era às vezes quase uma oposição e o ambiente era pouco propício a empatias interdisciplinares.

Ele ficou, portanto, a representar para mim aquilo que quis representar. Claro que foi com ele que aprendi novas tendências da historiografia, com primazia para a escola francesa dos Annales (Marc Bloch, Braudel, a história das mentalidades). Mas não foi esse aspeto que prevaleceu. O mais importante do trabalho dele, trabalho em que ele punha um zelo extremo, foi quase equivalente, por estranho que pareça, ao trabalho de um professor de Literatura. Com efeito, devo-lhe o acesso e o modo de acesso a um corpus de leituras decisivas.

Eram, sobretudo, textos franceses do século XVIII. Rousseau, Diderot, Voltaire, Montesquieu, D’Alembert. Genericamente falando, a Enciclopédia iluminista. A que acresceram, tanto quanto me lembro, importantes opúsculos de Kant e, ainda, alguma bibliografia passiva que pouco me impressionou (Paul Nizan, por exemplo). Mas os textos franceses setecentistas e Kant foram, repito, decisivos.

Decisivos porque nunca me passou pela cabeça especializar-me no século XVIII. E creio que devo essa não-decisão a Diogo Ramada Curto. Ensinados por ele, aqueles textos ficaram a ser partes da minha formação intelectual, referências de fundo, e não potenciais objetos de interesse académico especializado. Ora, nesta data triste em que morreu Diogo Ramada Curto, percebo que vem dali a consolidação do que antes só tinha vislumbrado com o cosmopolita Joaquim Alberto, professor de Filosofia no ensino secundário: a paixão pelo espírito crítico europeu e pelo pensamento que procura libertar-se de preconceitos.

Para mim, que mais tarde fiquei colega de Diogo Ramada Curto na mesma universidade, esta morte inadvertida é difícil de viver. Nunca lhe agradeci o que lhe devo, desde logo. E o que aprendi com ele é de uma profundidade que só agora avalio bem. Europa moderna, atitude democrática, liberdade crítica, sensibilidade histórica, desprezo pelo paroquialismo — quem, senão ele, cuidou de que, fosse qual fosse o meu destino, eu não passasse pela universidade sem receber essas vastas heranças preciosas?

E teve esse cuidado usando o melhor método possível para pessoas com interesses literários, ou seja, atraindo os seus jovens e pouco preparados alunos para textos extraordinários que só naquela aula foram lidos e debatidos. Só ali, em mais lado nenhum, ao longo de quatro anos de curso. Ficou para sempre.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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