Um novo rosto na República

Portugal atravessa tempos dramáticos. Como previsto, o país encontra-se na linha da frente das alterações climáticas, o que se traduz num doloroso sofrimento coletivo. Precisamos de um Governo corajoso, de um Presidente determinado e de uma oposição responsável e ativa. Precisamos, em suma, de bons políticos. E para os definir, talvez devamos procurar ferramentas fora do léxico estritamente político — a começar pela arte da leitura facial. Neste campo, a psicologia estabelece uma distinção fundamental: as emoções genuínas emergem de respostas integradas, enquanto as teatralizadas resultam de esforço muscular localizado. Quando alguém tenta fabricar preocupação, recruta apenas os músculos da testa e do sobrolho, esquecendo que a autenticidade é holística por definição. A performance concentra-se onde se julga que a emoção deve estar — mas ignora onde ela efetivamente se revela. António Damásio revolucionou esta compreensão com a teoria dos marcadores somáticos. Perante uma catástrofe, o corpo produz uma resposta visceral involuntária — alterações cardíacas, respiratórias, de tensão muscular — que desagua no rosto como constelação integrada. Não há esforço, há resposta; a expressão é consequência, não construção.


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