A capacidade de tirar partido do erro e do fracasso para avançar
De regresso ao seu laboratório depois das férias do Verão de 1928, Alexander Fleming reparou que um dos recipientes com cultura de bactérias tinha bolor, mas o mais incrível é que, em redor desse bolor, as bactérias tinham desaparecido. Intrigado com esta estranha ocorrência, realizou novamente a experiência, e concluiu que o bolor, identificado como pertencendo ao género peniccillium, destruía as bactérias. Estava descoberta a penicilina, que estaria na origem do primeiro antibiótico! Mas, tão incrível como a própria descoberta, é perceber que, mais do que de um acaso, esta nasceu de um erro: na verdade, o que esteve na origem do aparecimento desse bolor foi o facto de o recipiente da experiência ter sido mal higienizado.
Poderíamos continuar a elencar inúmeras descobertas com origem no erro e na serendipidade, mas recuemos até ao ano de 1968, quando o pesquisador Spencer Silver, ao tentar inventar uma cola forte, apenas conseguiu criar uma cola que colava mal. Este resultado redundou num aparente fracasso até ao dia em que Silver partilhou a sua descoberta com o colega Arthur Fry, que cantava no coro de uma igreja e perdia frequentemente o fio à meada, uma vez que as folhas coloridas que utilizava para marcar as páginas dos cânticos caíam do livro. Para resolver este problema, Fry recorreu à estranha cola do seu colega para fixar os marcadores às páginas: tinha acabado de descobrir os Post-it, que rapidamente se tornaram num sucesso de vendas!
Mas, tão ou mais importante do que a descoberta de Fry, é a recomendação deixada por este inventor para a posteridade, que incita a “tentar tudo, pois os mais bem-sucedidos são aqueles que acumulam o maior número de fracassos”. É precisamente esta a postura defendida por Gianrico Carofiglio na obra Éloge de l’erreur et de l’ignorance, na qual estabelece uma ponte entre a investigação e a vida afirmando que, tanto num caso como no outro, só existe uma forma de aumentar a probabilidade de provocar acontecimentos auspiciosos: multiplicando as ocasiões.
Segundo este ensaísta, esta multiplicação de ocasiões implica que não nos inquietemos demasiado com o facto de muitas destas redundarem em fracassos. Na sua opinião, os melhores investigadores são aqueles que sabem falhar rapidamente, com elegância e sem consequências de maior, ou seja, que são capazes de utilizar o erro e a dúvida como instrumentos de trabalho. Nesta linha, a sorte consiste na arte de tentar, de experimentar e de aproveitar oportunidades que tão pouco se sabia existirem — enfim, na arte de se estar preparado para mudar de rumo.
Contrariamente ao defendido por Carofiglio, muitas pessoas fazem tudo para evitar os erros. E é essa vontade de evitar os erros a todo o custo que, na sua perspetiva, frequentemente dá origem a fracassos graves, muitas vezes desastrosos e irreversíveis. Ao invés, aqueles que não temem os erros são precisamente aqueles que avançam e aperfeiçoam os seus conhecimentos graças às tentativas, aos fracassos e às correções, ficando, por esse motivo, menos expostos aos erros catastróficos. São também aqueles que estão mais abertos ao saber, às mudanças imprevistas de trajetória, à obtenção de resultados que nem sequer tinham imaginado e, em consequência, a sucessos inesperados.
À margem das reflexões sobre as oportunidades fenomenais proporcionadas pelos erros e pelas mudanças de rumo, Carofiglio opõe-se àquilo que considera a retórica nociva do pensamento positivo, que nos bombardeia constantemente com mensagens sobre a necessidade de aceitarmos os erros, e de os integrarmos na narrativa fabulosa e banalmente otimista da vida e da experiência. Se, nas suas palavras, é verdade que os erros e os fracassos podem conduzir a novas descobertas e aprendizagens, também é certo que não devemos cair na ilusão difundida por numerosos manuais de desenvolvimento pessoal, segundo os quais todos os erros e fracassos dão origem a oportunidades de crescimento.
A realidade é bem diferente: numerosos erros e fracassos não produzem nenhum resultado positivo e, por vezes, nem sequer permitem aprender lição alguma, a não ser recordar-nos da nossa natureza imperfeita. Nas vidas individuais e coletivas, a experiência humana é frequentemente marcada por acidentes inevitáveis e catastróficos nos quais é difícil ver-se algo de positivo. É por esse motivo que este autor considera que não podemos aprender a tirar partido das oportunidades proporcionadas pelos fracassos sem que, simultaneamente, admitamos que esta opção nem sempre é possível.
Assim, aceitar os erros e os fracassos não contribui necessariamente para o progresso pessoal, assente no pressuposto de que todos os erros e todos os fracassos são úteis e contêm lições. Já considerá-los como parte integrante da nossa humanidade — mesmo que não nos levem a parte nenhuma — permite, em contrapartida, que avancemos com mais fluidez e com menos ansiedade, livres do fardo da perfeição que muitas vezes carregamos.
A autora escreve segundo o AO90
