Democracia sob cerco: quando o medo substitui a confiança

Há uma pergunta que os nossos tempos evitam formular com clareza, talvez porque a resposta seja demasiado perturbadora: e se a democracia não estiver a ser destruída, mas a tornar-se obsoleta? Não por um golpe, não por uma revolução, mas por uma erosão tão lenta e tão sistémica que, quando a percebemos, já não há substância que salvar, apenas a forma vazia que ficou, habitada por rituais que perderam o sentido.

Vivemos num momento em que três forças convergem com uma precisão que quase parece calculada: a aceleração tecnológica reorganiza os centros de poder sem que qualquer deliberação democrática o autorize; a incerteza económica instala um medo coletivo que corrói a confiança cívica e a substitui pelo apelo à ordem; e o conhecimento, esse alicerce invisível da autonomia política, definha não por perseguição, mas por indiferença. A fogueira do século XXI não queima livros. Deixa-os simplesmente a definhar nas prateleiras, no não financiamento das universidades, na desvalorização sistemática de quem pensa, ensina e cria. Heinrich Heine advertiu-nos de que onde os livros ardem, os seres humanos também estão destinados a arder. A nossa época acrescenta uma variante mais sinistra: onde os livros não fazem falta, os seres humanos também não farão falta.

O que torna esta conjuntura historicamente singular não é a presença do autoritarismo, esse é um fantasma que nunca abandonou completamente os corredores do poder. É a inversão de uma premissa que pareceu inabalável durante décadas: a de que a abertura democrática seria sempre uma vantagem estrutural. Os algoritmos de inteligência artificial não dispersam poder — concentram-no, com uma eficácia sem paralelo histórico, porque não precisam de coerção visível: bastam a personalização, a microssegmentação e a manipulação comportamental, operando a uma velocidade que ultrapassa qualquer capacidade humana de supervisão. O paradoxo trágico é precisamente este: a transparência democrática gera vastos repositórios de dados exploráveis; o pluralismo fragmenta a atenção pública; o........

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