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No caminho do sol a Lisboa

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Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Em 2020, no ápice da pandemia de Covid-19, eu morava no Brasil e me encontrava tão vulnerável quanto qualquer outra pessoa que, durante aquele período, tenha ficado sem casa ou sem emprego. Eu fiquei sem os dois. Fui apenas uma daquelas muitas pessoas que, sem trabalho e sem dinheiro para pagar o aluguel, se viram em apuros. E a contradição é que, mesmo sem ter um teto para chamar de meu, fiquei engaiolado dentro de uma casa — não a minha, mas a de um colega que me acolheu.

Nestes momentos em que o sofrimento é hiper-real (quando não é possível desviar dele completamente nem por um minuto), acabamos por nos agarrar a qualquer coisa que se pareça com uma boia de salvamento num mar agitado ou com um paraquedas descolado do corpo quando se está em plena queda livre.

Foi em um desses dias de isolamento e desespero, em que a sensação de perda total de presente e futuro pesava sobre os ombros, que fiz, por insistência de uma amiga, uma consulta gratuita por videochamada com a mãe dela, uma senhora cartomante. Era uma senhora muito simpática, diga-se de passagem, e que em nada se parecia com os estereótipos míticos das mulheres que leem cartas de tarô.

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Naquele dia, esta senhora me disse que as cartas anunciavam uma realidade dura para meu futuro próximo: que nos três anos seguintes a 2020, isto é, 2021, 2022 e 2023, absolutamente nada iria melhorar em minha vida. Nem boia de plástico, nem pedaço de isopor, nem lasca de navio em mar quase congelado.

O Brasil, sob os efeitos da pandemia de Covid-19 e do criminoso governo de Jair Bolsonaro, era um fosso profundo. E eu me afogava nele. Contudo, uma das coisas boas que aquela simpática senhora via em meu caminho era uma cidade antiga de um país distante, próxima de um rio e próxima ao mar; nesta cidade, disse ela, também haviam morado muitos reis e rainhas; nela, depois que tudo passasse, eu iria fazer morada, fazer futuro, permanecer.

Foi a esta imagem, vívida e opaca, fantasiosa e necessitada, imaginada por alguém que mais parecia uma criança machucada escutando a promessa de um Eldorado, que eu me agarrei para atravessar um período muito difícil, não apenas para mim, mas também para o Brasil e o mundo. Desde aquele dia, esperei por aquela cidade.

Que província se descolaria daquela imagem mítica que havia sido vista pela senhora cartomante? Qual cidade antiga, entre as tantas cidades antigas expostas na parede do meu museu imaginário, abriria caminho por céu, terra ou mar para que eu pudesse construir uma nova paragem?

Gosto de pensar que esta cidade é Lisboa. Até porque, passado exatamente os três anos de dificuldade previstos por aquela gentil cartomante, cheguei aqui em meados de 2024 para assumir uma vaga de trabalho como professor e pesquisador em uma universidade. Em uma das cidades mais antigas da Europa; num distante país de passado monárquico; perto do Rio Tejo e perto do mar.

Agora, a vida, incerta e trepidante, acontece todos os dias em Lisboa. A vida, aqui, não corresponde, naturalmente, à imagem idílica da cidade que eu necessitava com o corpo todo, dos fios do cabelo às unhas dos dedos. Mas, ainda assim, a cidade real acontece. Imperfeita, mas acontece. Lisboa, a cidade triste e alegre das fotografias de Victor Palla e Costa Martins, acontece.

Acontece na preocupação com o aumento do aluguel; nos absurdos burocráticos da legislação migratória; na gentrificação cafona que traga o direito à habitação; acontece no asco que nutro por partidos de ultradireita como o Chega. Mas também acontece em meio à precipitação das dificuldades, a sensação alegre de ter, ainda, uma rua, um bairro, uma casa, vizinhos, um presente.

Dias atrás, pouco antes do início da primavera, eu e meu companheiro fomos à Freguesia da Graça. Percorremos a Rua do Sol à Graça, com os corpos aquecidos pelo sol quente da tarde fria de sábado, olhando a todo o momento para as fachadas dos prédios do Largo da Graça, muitas delas repletas de bandeiras amarelas a pedir por mais moradia, mais vizinhos e menos Airbnb.

Então, lembrei do que aquela senhora cartomante havia me dito no passado e pensei: se Lisboa seria a cidade do meu futuro, que agora já é presente, qual será o futuro de Lisboa?

Por alguns minutos, enquanto olhava para aquelas bandeiras, pensei que agora é a própria cidade que se agarra a qualquer vislumbre de um futuro no qual ainda possa ser uma cidade, seja para o imigrante, seja para o português, que ainda aqui moram. Na Rua do Sol à Graça, Lisboa, resiliente, me parecia tentar agarrar-se a si própria; então, senti uma alegria cálida, uma tristeza térmica, e quis também agarrar-me a ela.


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