Nas cidades, os arquitectos desenham e os outros decidem |
Gostamos de acreditar que as cidades são desenhadas por arquitectos. Que há uma lógica, uma intenção, uma visão por detrás do espaço urbano que habitamos. Mas basta olhar com atenção para qualquer cidade portuguesa para perceber que essa ideia é, no mínimo, incompleta. A cidade de hoje não é apenas o resultado de desenhos. É o resultado de decisões.
Durante a formação, ensinam-nos a pensar a arquitectura como um exercício de projecto: analisar o contexto, definir um programa, desenhar soluções. Aprendemos a ver o espaço como algo que pode ser pensado, melhorado, transformado. Mas quando entramos na prática, rapidamente percebemos que o desenho é apenas uma pequena parte da equação.
O que se constrói, e o que nunca chega a ser construído, depende de decisões políticas, interesses económicos, planos de investimento, regulamentos, negociações e compromissos. O projecto é importante, mas raramente é determinante. E, no entanto, continuamos a alimentar a ideia de que os arquitectos desenham as cidades.
Evitamos falar de quem decide, de quem beneficia e de quem fica de fora. Mas talvez esteja na altura de mudar essa conversa.
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A verdade é que o urbanismo nunca foi neutro. Cada rua, cada edifício, cada vazio urbano resulta de escolhas. Escolhas sobre onde investir, quem pode construir, que usos são permitidos, que zonas são valorizadas e quais são esquecidas. Escolhas que reflectem interesses, prioridades e, muitas vezes, desigualdades.
Quando uma zona é reabilitada e outra é abandonada, isso não é acaso. Quando um bairro é transformado em produto turístico e outro continua sem infra-estruturas básicas, isso não é inevitável. Quando se decide construir mais habitação de luxo em vez de habitação acessível, isso não é uma consequência natural do mercado. É uma decisão. E essas decisões raramente são tomadas por arquitectos.
O papel do arquitecto, tal como é tradicionalmente entendido, situa-se frequentemente num ponto intermédio: recebe um enquadramento já definido, um terreno, um programa, um orçamento, e trabalha dentro desses limites. Pode influenciar o resultado, mas raramente define as regras do jogo. Isto não diminui a importância da arquitectura, mas obriga a repensar o seu lugar.
Se queremos compreender verdadeiramente como as cidades são feitas, talvez seja necessário olhar para além do projecto. Falar de políticas públicas, de planeamento urbano, de legislação, de investimento, de quem tem poder de decisão. Reconhecer que o espaço não é apenas desenhado, mas também definido por regras, interesses e decisões que vão muito além do desenho.
A arquitectura não acontece isoladamente. Existe sempre dentro de estruturas mais amplas, políticas, económicas e sociais, que definem o que é possível construir, onde e para quem.
Esta desconexão não é inocente. Ao focarmo-nos apenas no desenho, evitamos discutir o contexto em que ele acontece. Evitamos falar de quem decide, de quem beneficia e de quem fica de fora. Mas talvez esteja na altura de mudar essa conversa.
Se a arquitectura quer continuar a ser relevante, não pode limitar-se a responder a encomendas. Tem de participar no debate sobre como as cidades são pensadas, financiadas e reguladas. Tem de reclamar um papel mais activo nos processos que moldam o território. Caso contrário, continuará a desenhar fragmentos de cidade dentro de sistemas que não controla.
E nesse cenário, a pergunta deixa de ser apenas “quem desenha as cidades?”, para passar a ser outra, mais desconfortável: quem decide, afinal, como elas são vividas?