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Deixem os médicos tratar das doenças e as pessoas trans da sua dignidade

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20.03.2026

É uma coisa extraordinária, esta mania que o Estado tem de querer que os médicos sejam polícias. Eu, que ainda estou a aprender a usar um estetoscópio sem parecer que estou a brincar aos médicos, já percebi uma coisa essencial: há coisas que não se ouvem no peito. E a identidade de género é uma delas. Não tem sopros, não tem ruídos adventícios. Estar a estudar para ser médica é uma tarefa que exige uma certa humildade perante o corpo humano, mas parece que há quem queira que eu receba, junto com a bata branca, um carimbo para validar a existência dos outros. Uma espécie de "visto de residência" para o próprio corpo.

Querem que seja possível um médico "diagnosticar” a identidade. Como se ser trans fosse uma pneumonia, uma hérnia discal ou uma borbulha insistente. Ora, a Organização Mundial da Saúde, que é gente que estuda, na sua mais recente classificação (CID-11), fez precisamente o contrário: retirou a incongruência de género da categoria de doenças mentais. Não foi um capricho ideológico, nem “wokismo”. Foi o resultado de décadas de evidência, de escuta, de ciência (essa coisa aborrecida que às vezes atrapalha as opiniões).

Mas em Portugal, o progresso dá-nos sono e a liberdade dos outros causa urticária. Há uma direita que, entre um discurso sobre a "liberdade individual" e outro sobre a "redução do Estado", decide subitamente que o Estado deve ser dono e senhor do género de cada um. É um estapafúrdio delicioso: querem menos Estado na economia, mas querem o Estado dentro das calças e da cabeça dos cidadãos.

Querem obrigar-nos a nós, futuros médicos, a assinar relatórios para que uma pessoa possa mudar o nome no Cartão de Cidadão. É um retrocesso que cheira a mofo, a repartição pública dos anos 1950, a uma bafienta necessidade de controlar o que não nos diz respeito. Dificultar o acesso a cuidados de afirmação de género, sejam bloqueadores da puberdade, terapêutica hormonal ou simplesmente o reconhecimento legal não “protege” ninguém. Não “dá tempo para pensar”. Não “evita erros”. O que faz, de forma consistente e documentada, é aumentar o risco de depressão, ansiedade e ideação suicida.

Aliás, pedir a um médico para atestar a identidade de alguém é um insulto à inteligência do médico e uma crueldade com o paciente. A medicina serve para aliviar o sofrimento, não para o burocratizar. E o sofrimento, garanto-vos, não vem da identidade da pessoa, vem desta política cinzenta que a obriga a pedir licença para ser quem é. É a política do "não vás por aí que eu não gosto", disfarçada de "zelo científico". Não é zelo; é medo. É o medo de que o mundo seja mais vasto do que a vossa mesa-de-cabeceira.

Como futuro médica, o meu primeiro dever é o Primum non nocere: primeiro, não causar dano. E não há dano maior do que dizer a um jovem que a sua verdade é uma patologia, ou a um bebé que o seu corpo "está errado". Se o Parlamento decidir recuar nestes direitos, não está a proteger a família, nem a ciência, nem a tradição. Está apenas a transformar os consultórios em tribunais de pequena instância.

Deixem os médicos tratar das doenças e deixem as pessoas tratar da sua dignidade. É mais simples, e, acima de tudo, é muito mais civilizado. A medicina que me interessa, e a única que faz sentido praticar, não precisa de transformar identidades em patologias para se sentir útil. Precisa, isso sim, de reconhecer onde está o sofrimento e de agir para o diminuir.

Se há coisa que não cabe num diagnóstico é a dignidade e se há coisa que não devia caber na medicina é a vontade de voltar atrás.


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