Saramago e a escola que desiste de pensar |
Como professor, inquieta-me a velocidade e a intensidade com que tantas mudanças estão hoje a ser impostas à escola. A escola pública, em particular, vai-se transformando quase sem ruído, mas nem por isso de forma menos profunda. E é precisamente por isso que recuso a ideia de uma escola que, aos poucos, vá desistindo daquilo que lhe dá vida no essencial: a exigência, o debate e a construção do pensamento.
É neste contexto que não pode ser ignorada a secundarização de José Saramago, o único Prémio Nobel da Literatura em língua portuguesa nas escolas. O debate em torno desta decisão não se resume à defesa de um autor ou do seu valor institucional. Trata-se, acima de tudo, de defender aquilo que a escola deve ser. E Saramago representa, como poucos, essa dimensão exigente: ler o que incomoda, pensar o que inquieta, desafiar-se a ver o mundo para lá da espuma dos dias.
Ler Saramago é confrontarmo-nos com uma escrita que não oferece respostas fáceis nem se deixa reduzir a interpretações simplistas. Saramago exige tempo, vagar e contexto. Exige-nos pensamento histórico, valores, sentido de justiça, compreensão das relações de poder e uma interrogação constante sobre a condição humana. E é precisamente por isso que continua a ser um autor indispensável.
Numa escola que afirma querer formar cidadãos críticos e participativos, torna-se profundamente contraditório secundarizar Saramago cuja obra constitui, em si mesma, um exercício de pensamento. Compreender Saramago não é apenas estudar literatura; é também o contacto com um dos grandes marcos do pensamento social, político e literário português do século XX.
O que se vai notando, em várias opções programáticas, é uma preocupante tendência para reduzir a complexidade, simplificar conteúdos e evitar formas de pensamento mais exigentes. Mas quando afastamos os alunos de autores difíceis, não os estamos a proteger — estamos a empobrecê-los. Privamo-los do confronto com textos que pedem interpretação, sensibilidade e inteligência crítica.
A escola não deve ser um espaço de facilitação. Deve ser, independentemente do contexto de cada aluno e cada autor, o lugar onde estes se tocam, onde se aprende a lidar com a complexidade do mundo e onde se constrói a capacidade de pensar com profundidade.
Deixar de estudar Saramago é perder uma oportunidade de mostrar aos jovens que a literatura não serve apenas para analisar recursos ou estruturas estilísticas, mas também para interrogar o real de um livro ou uma história.
Num tempo marcado pela pressa, pela simplificação e pela superficialidade, Saramago continua a ser um antídoto necessário. E a escola, se quiser continuar a cumprir a sua missão, não pode desistir de autores que ensinam a pensar.