Pousa tuas mãos no violino da minha vida |
Quando a Primavera se anunciava pelos primeiros espirros sucessivos, não era na necessidade de um anti-histamínico que pensava primeiro, o pensamento pousava antes na urgência de encontrar o amor, não um amor abstracto, romantizado, idealizado, mas um amor real, de carne e osso, de odores, de estupidez e de imperfeição, e tudo parecia encaminhar-se para que finalmente acontecesse, em sincronia com a chegada da estação que empurra todos os animais para a procriação, até os tolos passarinhos e as ferozes criaturas de sangue frio.
Desde que a conhecera que o verso de Rainer Maria Rilke não lhe saía da cabeça: «Pousa tuas mãos no violino da minha vida», e comovia-se como se estivesse diante da mais bela formulação, se não a mais bela, certamente a que lhe assentava como uma luva no coração exposto durante tanto tempo aos humores inconsequentes de Eros.
O verso iluminava tudo dizendo tão pouco, era perfeito, bastaria mudar uma palavra para destruir o que de mais belo continha. Ocorreu-lhe, por exemplo, que se o verso fosse ajeitado aos tempos modernos, «pousa tuas mãos no volante da minha vida», não seria apenas uma questão sonora, musical, que o tornaria vulgar, seria o próprio significado que se inverteria. Não queria alguém a tomar-lhe o volante, o comando da viagem da sua vida, queria antes um violino, a música, a banda sonora, a beleza. Procurar no outro a beleza, não a perfeição, encontrar-lhe o erro, a falha, aquilo que a certa altura, felizmente, não conseguimos esconder e que se revela como um fenómeno inevitável da natureza. Por isso, sem pensar, deu-lhe a mão à saída da exposição de arte, sem pensar, sem plantar o gesto com antecedência, coisa de que raramente era capaz, e pareceu-lhe tão simples naquele momento dar-lhe a mão e saírem como uma unidade provisória de corpos, e desde então o verso de Rilke regressava como um suspiro irreprimível: «Pousa tuas mãos no violino da minha vida».