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Os meus alunos, que não são meus, são os melhores do mundo

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10.03.2026

Os meus alunos não são meus, eu sei, e, no entanto, sinto por eles um carinho despudorado, um orgulho de se lhe tirar o chapéu, uma alegria travessa de lhes puxar o tapete e ficar a assistir, como espectadora privilegiada, àqueles instantes em que crescem por dentro, devagar, como abismos que um dia aprendemos a encarar, e eu sei, repito a mim própria, os meus alunos não são meus, e no entanto sinto por eles uma protecção que talvez seja maternal, talvez fraterna, talvez apenas ternura pela alegria deles, pela juventude deles, pela inocência que trazem emprestada e que ainda lhes mora nos olhos, e dou por mim cheia de rugas de riso cada vez que vencem alguma coisa, uma resposta certa, um medo vencido, um pequeno passo que para eles é enorme, e essas vitórias são deles, somente deles, e talvez um por cento minhas.

Um por cento chega-me bem para receber todos os anos novos rostos, sempre novos, alguém dizia que cada vez mais jovens, cada vez mais distantes da idade de quem os recebe, e talvez seja verdade, e ainda assim, esses alunos que eu sei que não são meus dizem que eu sou a professora deles, e sendo assim tenho de lhes dar tudo o que tenho, o bom e o mau, o que sei e o que não sei, as certezas e os tropeços, não os poupo de nada porque sei que o mundo, depois de mim, também não os vai poupar, e por isso tento ensinar, acompanhar, vejo-os crescer, e no fim penso que os meus alunos, que não são meus, são os melhores do mundo, como os filhos.

Quero lá saber dos outros alunos de outros professores, para mim nem sequer existem.


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